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A festa de Natal

Alves Redol


........O facto de ser estrábico, ligeiramente estrábico, não quer dizer que o Silveira, o Raul Silveira, gerente principal da Cerâmica da Pontinha, Lda., seja um homem de ideias vesgas ou de vistas curtas. Pressente até os riscos dos negócios, à distância, ele mesmo diz que se increspa por dentro como os gatos por fora, o que se deduz sem esforço, se nos lembrarmos que nunca perdeu um chavo com certos construtores civis da Amadora ou de Almada, antigos trolhas ao serviço de conceituados prestamistas, galifões de juros altos e de golpes brandos, já que a brandura é a escola nova de todas as mortes serenas mas irremediáveis.
........Esta percepção quase divina dos grandes perigos deu-lhe um prestígio enorme entre a miuçallha da sua indústria. E porque não lhe falta a palavra fácil para esconder bem o que almeja, há quem o trate por Sr. Engenheiro, o que está certo, de tais engenhos se vem valendo para navegar neste mar eriçado, expressão muito sua, talvez por ter desejado, quando jovem, entregar-se à marinhagem. Foi por isso, talvez, que o Raul Silveira entendeu tão rigorosamente certo discurso de violentas branduras: -"A hora da industrialização não se compadece com formas antiquadas de exploração fabril, mais de oficinas de artesanato do que unidades válidas, e há que empreender desde já todas as reformas das estruturas, de maneira que o nosso barco aponte a proa para uma nova viagem, onde se encontrará o progresso e o bem-estar."
........O Silveira gostou da imagética maruja, mas disse logo consigo: - Agora é que são elas! Estou lixado!
........Isto significa que entendeu perfeitamente a mensagem do seu breve fracasso, se não conseguisse por a fábrica a trabalhar a um ritmo mais vivo, coisa que não se processa só com boas intenções. "E dinheiro para o barco andar?", interrogava-se preocupado, recordando-se depois que a antiga sabedoria popular, mal preparada para os tempos de hoje, dizia, com pavoneio, "grande nau, grande tormenta", o que era, em boa verdade, uma forma habilidosa e canalha de os idiotas preferirem as naus pequenas, deixando só a alguns as viagens nas naus maiores.
........Vendo as perspectivas, propunham-lhe uma espécie de batalha de Lepanto, o que era uma grandessíssima gaita, pois as cartas de marear destes oceanos das indústrias estão nos cofres de uns tantos e mais ninguém se serve delas.
........O Silveira não se ilude. Talvez por ser pequeno, como os frascos de perfume concentrados, o Raul pensa bem com o corpo todo, o que não quer dizer que pense com os pés, mas que o seu raciocínio não tem de fazer grandes viagens para vir de um extremo ao outro, o que lhe traz vantagens apreciáveis para as resoluções prontas. Isto confirma que o Silveira discorre com inteligência, o que não admira, se se souber que ainda o pai levara a vida inteira a puxar com os bicos da enxada o Céu para a Terra. Sem lhe deixar mais do que a enxada.
........O Raul Silveira é, pois, um destes portentosos homens do nosso tempo que se fazem a si próprios, já que Deus não pode agora fazer todos os seres humanos à sua imagem e semelhança.
........Dar o balanço à situação não significa nesta passagem, mesmo para a gente de veia marinheira, que o Raul tivesse de prever se o balanço do barco se dava da proa para a ré ou de bombordo para estibordo, embora em nau pequena sejam de recear todos os