......A mulher tirou as mãos de sob
o avental e perguntou numa voz despida de qualquer inflexão amável: ......Que
Deseja? - Depois, atentando melhor na figura miserável do interlocutor,
acrescentou, asperamente elucidativa: - A entrada não é
por aqui, é pela escada de serviço . ......Mas
o homem não despegava. Tinha uma teimosia humilde e inabalável: ......-
Quero falar ao senhor .Ele é que me mandou chamar ......-
A si? - Havia uma ironia maldosa na interrogação. - Ah, ele
manda chamar muita gente e depois não a recebe .Às
vezes é uma romaria . .....Calou-se
um instante e fixou o homem. .....Nos
olhos dele havia uma doçura atenta e compassiva. Parecia-lhe que
aquele homem, com o fato remendado, o cabelo rapado, as alpercatas rotas,
a tiritar de frio, o ar clássico de vagabundo das estradas, estava
com pena dela. Sentiu-se chocada e, ao mesmo tempo, intimidada. A sua
vaidade agressiva de porteira de casa rica, diluíra-se. Pensou que era
absurdo, que era o contrário do que devia ser, mas aquele homem
estava com pena dela. Teve um sobressalto de vergonha e inquiriu quase
humilde: .....-
É por causa de algum anúncio, não é? .....-
Sim, um anúncio a chamar por mim Não o li, que não
sei ler, nem escrever.
Foi um companheiro que me disse .....-
E quem digo ao senhor que é? .....-
Diga-lhe que é Nosso Senhor Jesus Cristo. .....A
mulher afastou-se deixando a porta entreaberta. .....O
homem ouviu o ruído de passos no corredor e depois bater a uma
porta. .....-
Está aqui um homem que quer falar com V. Ex.ª. .....-
Quem é? .....-
Diz que é Nosso Senhor Jesus Cristo. .....-
Não conheço .....Houve
um instante de silêncio e depois, alguém gritou de dentro: .....-
Ah, já sei Espere Mande entrar. .....-
Por aqui .....Foi
guiando os passos do homem até à porta do fundo. .....-
Já aqui está. .....-
Que entre .....O
pintor ficou a olhar para o homem que acabava de chegar e desatou a rir. .....-
Essa é boa! Essa é muito boa! Então você
julga que .....Vestia
com o trajo dos artistas de Montmartre - casaco de veludo, o cachimbo
ao canto da boca, numa das mãos a paleta, e, na outra, o pincel.
.....A
luz entrava diluída pela cúpula envidraçada do "atelier",
e caía em cheio sobre o modelo. Estava nua, apenas com um ligeiro
sendal a envolver-lhe a cintura, e o cabelo negro e comprido atirado para
a frente a aflorar-lhe as pontas dos seios. .....Via-se
que era uma pose procurada e um pouco artificial.
Ironicamente, o pintor fez as apresentações: