|
|
O Pai Natal mostrou-se novamente assaz generoso para comigo durante a quadra natalícia. Verdade se diga, nada lhe pedi. Mas como ele veio das califórnias abundantes e distantes, a amizade que ali floresce encarregou-se da lista das encomendas, fazendo-me chegar ao sapatinho na frente da porta uma das prendas que mais gosto – um livro! Trata-se do livro de poesia “PÓ”, da autoria do meu grande amigo, dr. Décio G. Machado Oliveira, mas que nesta obra usa o heterónimo Machado Ribeiro. E, ao que parece, terá sido uma escolha assaz feliz, pois, conforme se pode ler das palavras do dr. José Luís N. P. da Silva no preâmbulo, “Machado Ribeiro são os dois pólos da tua poesia” “O primeiro – explica -, que fatidicamente já estava no teu nome, é a metáfora dos muitos e duros golpes que a Morte foi dando (…) nos ramos (…) da tua tão amada Oliveira familiar. Ribeiro é um regresso simbólico às fontes de saudade e profunda melancolia de Bernardim que percorrem a tua obra como os caudais das Grandes Ribeiras da tua terra”. “PÓ”, publicado pela Portuguese Heritage Society of California, é dedicado aos irmãos, à esposa, filhas e netos do autor que, sem ter procurado escrever quaisquer palavras de introdução, contudo fá-lo na forma de agradecimentos a todos aqueles e aquelas que “há muito me pediam para que publicasse os meus poemas”. No soneto que dá título ao livro, Machado Ribeiro, que principia por enumerar as muitas dádivas com que Deus o criou, termina assim:
Me deu Deus vales e montes multicolores, Lagos e rios com águas cristalinas, O universo inteiro p’ra mim só.
De que me servem os campos e as flores, As aves, os rios, vales e campinas, Se bastava teu amor em vez de PÓ.
São, no total, 167 quadras, poemas livres e sonetos dedicados a entes familiares, aos Açores e de reflexão sobre o que tem sido ao longo da sua vida, o retrato verdadeiro do quão há sofrido. Desses, registo ainda aquele que, para mim, é o mais bem conseguido e intitula-se de O Meu Funeral: ……………………. Mais tarde, sonhei que estava A morrer e, sem pensar, Levantei-me, E resolvi dar um passeio. Saí à rua sem receio, E para não incomodar ninguém Com o funeral, achei por bem Ir a pé para o cemitério. Machado Ribeiro encontra o coveiro que, “acostumado a falar com os mortos”, lhe pergunta sobre o que está ali a fazer, respondendo aquele que, “como já tinha cova paga, ia ver se era capaz De adormecer Para acordar morto. Conheci o dr. Décio em 2001 aquando do curso “Açores: À Procura das Raízes”, patrocinado pela Direcção Regional das Comunidades e cuja realização decorreu na ilha do Pico, com visitas de estudo às do Faial e São Jorge. Foram pessoas como aquele compatriota, com o seu carisma e aquela alma tipicamente açoriana reconhecida na nossa gente, que ajudaram a fazer do acontecimento o sucesso que teve. De facto, nunca encontrei na vida uma pessoa mais sorridente e bem disposta como o dr. Décio. Durante os dias que estivemos juntos ninguém pôde ficar alheio ao seu bom humor, nos deliciando em cada instante com as suas anedotas frescas, picantes, e/ou com a sua tão evidente seiva poética em hilariantes quadras feitas de improviso. Contudo, agora vejo, nunca pensei que aquela sua límpida alma e coração tão generoso albergassem tantos traços de amargura, dor, solidão e carência amorosa! Tem razão o dr. Fernando Soares Silva quando diz, no prefácio, que todos os poemas do autor “deixam transparecer profundas preocupações intimamente pessoais, ouvindo-se aqui um ai de saudade, ali um suspiro de amor, lá um triste lamento, mais além um soluço sentido, aquém um alto brado de frustração, e acolá uma fervente prece implorando o fim de um tormento que lhe despedaça a alma e o coração”. Para o dr. Soares Silva, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley), a poesia de Machado Ribeiro é “simples e complexa, espontânea e meditada, suave e explosiva, presente e nostálgica, sempre sentida e muitas vezes chorada”. Em Quadras Soltas, Machado Ribeiro canta assim o seu estado de alma: Sou mais triste que a tristeza/ e mais louco que a loucura/, sou mais pobre que a pobreza/, sou filho da desventura. O dr. Décio Machado Oliveira é distinto dentista-cirurgião em San José, na Califórnia, onde reside. Nasceu na então vila da Ribeira Grande, hoje cidade, e é irmão dos saudosos Pe. Dr. Edmundo G. Machado Oliveira, fundador do orfeão com o mesmo nome, e Pe. Dr. Albano G. Machado Oliveira. António Vallacorba |