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MALA GRANDE

........A meio da fazenda que se estendia pelas encostas do monte sobranceiro à povoação, ficava, sobre uma pequena colina, a Casa Grande - antiga construção de tipo colonial - em cujos fundos havia um quarto amplo onde se arrumavam vários objectos caídos em desuso e uma grande mala preta de tampo abaùlado.
........Era ali que, às tardes, de regresso das aulas e pendurada a sacola dos livros no prego do corredor, eu e a pequenada amiga que quase diàriamente acorria à fazenda, nos entretínhamos com os diversos brinquedos que parentes e amigos em épocas de festa me ofereciam.
Decorria o tempo nesse ambiente maravilhoso que deixa para sempre gravadas na memória as mais doces recordações da infância.
........Quando às vezes, após a merenda, a garotada lá se ia embora e eu ainda ficava só no quarto, dava mais largas às diabruras e o barulho enchia então toda a casa. Choviam reprimendas e vinha, a seguir à admoestação, o aviso formal de que não tornaria a receber mais brinquedos…
........Pouco caso fazia dos ralhos da família e apenas no meu espírito de criança rebelde exercia certa influência uma velha negra - "Mãe Guida" - que de vez em quando vinha ao quarto da arrumação para me moderar os ímpetos de menino traquinas: - Menino, tome cuidado! Não faça tanto barulho! Olhe que mala grande faz mal à gente…- e apontava com o dedo a velha mala preta, tomando um aspecto misterioso e grave.
........Essa forma sempre igual de pôr cobro às minhas traquinices passou, a pouco e pouco, a determinar certa apreensão no meu espiríto. É, quando as primeiras trevas começavam a invadir o largo aposento, deixava logo os brinquedos e esgueirava-me para o corredor, indo para a sala das costuras, para os braços negros de "Mãe Guida".
Tinha medo da mala preta!
........Fui crescendo e comigo cresceu também o desejo de um dia arranjar a coragem necessária para desvendar os segredos desse baú negro que ocultava no seu bojo - no aviso misterioso da velha negra - uma legião de feitiços.
........A coragem, porém, nunca veio.
........Tinha medo da mala grande!
........Um belo dia, com o buço já a despontar, dei costas à família e abalei para outras paragens, procurando novo rumo à minha vida.
........Lá for a, em meio estranho, nunca mais tive lembranças dos meus temores de criança em redor da mala grande. E dos incidentes infantis da vida na fazenda apenas me foi restando uma leve recordação que o tempo se encarregou de esbater a pouco e pouco…
........Volvido muito tempo, passei um dia pela povoação e, num alvoroço, corri à Casa Grande a visitar alguns parentes que agora aí moravam.
........Era ainda o mesmo o ambiente: apenas as pessoas do meu tempo se tinham ido embora para dar lugar a outras.
Se bem que tivessem passado muitos anos e poucas já fôssem as reminiscências da quadra infantil, veio-me de súbito à lembrança , como por encanto, o desejo de ir ao quarto dos fundos, ver se ainda lá estava a mala grande e …abri-la!
........Ela lá estava a um canto, no mesmo sítio de outrora, com a côr primitiva e o mesmo ar de mistério, como estátua que resistisse a todos os vendavais.
........Avancei.
........Ansiosamente, deitei mãos à tampa e ergui-a. Dentro, velhos e carcomidos pelo tempo, alinhados como em parada, estavam todos meus brinquedos da infância: os soldadinhos de chumbo, os animais de corda, os ursos de astrakan, as caixas de música…
........Em silêncio, dominado por uma irreprimível angústia, deixei cair a tampa.
........Como num filme, se desenrolaram então, ante os meus olhos rasos de água, todas as cenas daquela outra idade, com os mesmos personagens, as mesmas vozes , as mesmas cores…
Uma dôr imensa - um grande mal de alma - me invadiu o coração e me tomou de todo.
........Olhei em torno e, como ao poeta, apreceu-me ouvir chorar a cada canto a saudade!
........E nesse instante - bem me lembro - aquelas estranhas palavras de "Mãe Guida", a velha negra que me criou, ecoaram de novo aos meus ouvidos, cheias de mistério, plenas de encanto:
........-Menino, tome cuidado! Mala grande faz mal à gente…