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N.º 8 Junho 2003 |
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No dia 6 deste mês, faz dez anos que o Golden Venture encalhou nas águas que banham a cidade de Nova Iorque. Morreram 10 dos 296 chineses que o barco transportava a fim de entrarem ilegalmente nos Estados Unidos. Sem se preocupar patavina com as referidas mortes, a praça pública rapidamente se dividiu entre Gregos e Troianos, os que foram e são a favor da imigração ilegal e os que não. Argumento puxa argumento, da ilegal passou-se à discussão da imigração legal. E como é costume nestas coisas, havia uns que defendiam o controle das fronteiras e os outros que diziam que nas terras dos Estados Unidos já havia muita gente quando chegaram os primeiros europeus. E assim, mais uma vez, o assunto ficou em águas-de-bacalhau. Dez anos depois, ninguém fala no assunto. E não se fala porque não convém. Porque os intervenientes na conversa de então, incorrectamente apelidada de debate, são os primeiros a tirarem proveito da mão-de-obra ilegal, a mais barata. Continua-se a mencionar as causas da emigração no seu ponto de origem, deixando-se para segundo plano as causas da mesma emigração no seu ponto de destino. Assim, projecta-se a imagem de que quem emigra é quem precisa, em troca dum favor feito por quem recebe milhares e milhares de emigrantes, anualmente. As causas determinantes da emigração estão nos países acolhedores e não nos das pessoas que procuram melhorar as suas condições de vida. Para quando, de facto, um debate sério e consequente sobre a e/imigração? As escolas e universidades oferecem imensos cursos sobre os mais controversos temas, como pena de morte, feminismo, aborto, discriminação sexual e racial, etc. Para além de se publicarem centenas de livros, alguns já clássicos, também assistimos à passagem de filmes, muitos e informativos, sobre aqueles temas. Não tenho conhecimento duma obra-prima sobre emigração, seja ela literária ou cinematográfica. Não tenho conhecimento de nenhum tratado, seja ele social ou económico, sobre a emigração, legal ou ilegal. E precisamos! Precisamos para sabermos as suas causas, consequências e se ela interessa mais a quem emigra ou a quem precisa da sua força de trabalho.
Carmélio
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