| |
“O
Falar Micaelense”
Ou o livro dos coriscos!
......O
meu amigo Emanuel Linhares, presidente do Conselho de Administração
da Caixa de Economia dos Portugueses de Montreal e um corisco laparoso
de origem, mas bem amanhado na língua de Camões, distinguiu-me
recentemente com uma oferta de um estudo bibliográfico sobre o
linguajar do povo da Ilha Verde e de que muito orgulhosamente somos ambos
basalto também.
......Refiro-me, efectivamente, ao livro
“O Falar Micaelense”, da autoria de Maria Clara Rolão
Bernardo e Helena Mateus Montenegro, doutoradas em Linguística
Portuguesa pela Universidade dos Açores e ambas igualmente naturais
de Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, o que – segundo reconhecem
– “permitiu-lhes usufruir de um auxiliar precioso constituído
pelo conhecimento da língua falada no universo linguístico
que lhes serviu de berço”
......Com mais de 300 páginas, é
uma edição de João Azevedo Editor, tendo estado as
impressão e composição ao cuidado da Tipografia Guerra,
de Viseu. Por outro lado, esta interessante obra vem acompanhada de um
complemento sonoro, em forma de CD, contendo registos de fala espontânea
durante entrevistas para tal efectuadas com inúmeros residentes
das várias freguesias e zonas micaelenses e sobre os aspectos mais
visíveis da vida quotidiana de cada qual.
......O prefácio e o apoio científico
foram da responsabilidade do dr. João Saramago, Investigador Principal
de Linguística da Universidade de Lisboa, e para quem “o
dialecto micaelense, nos seus dois aspectos mais importantes, o fonético
e o lexical, passa a contar com uma obra que é, sem dúvida,
uma contribuição essencial e muito valiosa para a Dialectologia
Portuguesa, em geral e para a Dialectologia Açoriana, em particular”.
......Para as autoras, “A Ilha de S.
Miguel constitui uma área dialectal em que se manifestam características
que a singularizam no universo da Lusofonia. A sua situação
geográfica, a origem dos seus povoadores, a história do
seu povo, o seu isolamento são factores geralmente apontados para
explicar a notável diferenciação fonética
verificada quer em relação a outras regiões do Continente
português, quer em relação às restantes ilhas
que integram os arquipélagos dos Açores e da Madeira”.
......Evidentemente, tratando-se, como se
trata de uma obra de investigação e, como tal, contendo
o resultado final das análises fonéticas, lexicais, etc.,
a sua leitura poderá porventura parecer talvez algo de monótona
para o leitor mais interessado em romances, novelas, contos e/ou outra
literatura de índole mais popular.
......Debruçando-me sobre algum do
vasto glossário dos vocábulos e expressões desse
falar micaelense, que inclui termos anglo-americanos levados para os Açores
na bagagem dos emigrantes, surpreendeu-me o quão familiar muitas
deles são para mim; porém não faltam expressões
como estas de “alvarozes” (overals), “belica”
(pénis), “corisco” (Eh! Corisco mal amanhado!), “besuga”
(jovem bonita e de formas elegantes), “braçado” (mulher
de formas generosas), “fandulho” (roupa estragada), “intance”
(então), “molho-de-vilão” (molho de alhos, salsa,
azeite, vinagre ou vinho), (“zabela” (aquele zabela não
tem vergonha!), etc.
......Acerca desta temática, e em
trabalho similar do dr. José de Almeida Pavão, diz este
ilustre autor de “Os Xailes Negros”, que “Assistimos,
deste modo, ao que poderíamos designar por um processo de química
linguística, segundo o qual solicitações semelhantes
podem produzir resultados diferentes, tomando em linha de conta outros
factores intervenientes: assim, e no caso específico das ilhas,
a paisagem, a presença obsidiante do mar, o isolamento, as condições
climáticas, entre outros, combinados com as diferenciações
dos falares já existentes na origem, remontando ao período
do ingresso dos grupos migratórios, produzem modificações
originais”.
......Altamente recomendável aos curiosos
e estudiosos desta temática.
António
Vallacorba
Página Seguinte>>
|
|