A cidade... e eu
Por muito tempo eu
sonhara com a cidade. Pois não contavam dela tanta coisa
bonita!?... Ruas calcetadas, casas grandes e bem cuidadas,
jardins, piscinas, fábricas, lojas e armazéns que forneciam
praticamente tudo o que as pessoas necessitavam; igrejas
enormes de pedra trabalhada, com relógios no alto das torres
que até badalavam as horas e, vejam lá, lojas que
apenas vendiam sapatos.
E as histórias acerca da cidade não paravam por aqui: eram as das festas do Senhor Santo Cristo, muito especialmente sobre a procissão, na qual se incorporavam soldados a marchar sob o comando de capitães montados a cavalo; eram as dos filmes "de porrada" que se podiam ver todas as noites no Cine Marítimo e no Coliseu; eram as dos cheiros apetitosos, que enchiam as ruas, das comidas dos restaurantes, e eram... um ror de coisas mais num nunca mais acabar.
E eu dava asas à imaginação... E eu sonhava...Mas quando foi decidido que eu frequentasse o Ensino Secundário em Ponta Delgada, embora fosse algo já esperado e tão desejado, senti um nó no estômago e uma sensação indefinida de mal estar invadiu-me dos pés à cabeça. Uma mudança de vida é um salto para o desconhecido. É como que um desafio à nossa capacidade de adaptação ao futuro e, planeada ou não, assusta-nos. Daí aquele sentimento de incerteza que sempre vem do fundo do nosso ser e nos dá ligeiros arrepios de angústia: seremos nós capazes de dar conta do recado?... será que estamos a tomar a decisão mais acertada?...
Embora apreensivo, era tempo de me preparar para concretizar os meus sonhos e, portanto, de enfrentar a responsabilidade que me cabia no devir do meu futuro, se queria viver como aquelas pessoas da cidade que usavam gravata e calçavam sapatos como se todos os dias fossem domingos. Trabalhar nos campos e enterrar neles os meus sonhos?!... Não! E, numa manhã, ainda o sol não havia nascido, o meu pai arreou o cavalo ao charabã, e lá seguimos viagem rumo a Ponta Delgada.
Eu havia já passado pelas
Furnas, aquando romeiro no ano anterior, mas, muito embora
a lagoa -- eu nunca tinha visto uma porção tamanha de água
doce -- e as caldeiras ---resfolegadouros que, diziam,
apaziguavam a fúria vulcânica -- me tivessem provocado
exclamações de espanto e admiração, foi a impressão que o
Largo Almirante Dunn me causou, que ficou para sempre
gravada na minha memória.
Pregado ao assento do charabã em êxtase desde que entrara na cidade, senti-me uma pequenina partícula do universo à vista do largo: o som do rolar das rodas no empedrado, o dos cascos do cavalo batendo cadenciadamente na calçada, o dos motores dos carros e o das buzinas apitando, faziam um estranho e mágico concerto com a música duma melodia clássica tocando algures; à nossa frente, um prédio altíssimo, em forma de proa de barco, separava duas das ruas que encaminhavam as pessoas e o trânsito em cinco direcções diferentes; e, naquele preciso momento, o sol nascente banhou o largo, enchendo-o de vida e cor, começando por descer o prédio gradualmente, de mansinho, dando-me a sensação de que a proa vinha ao nosso encontro rasgando a calçada como se água fosse.
Não havia nada de extraordinário no largo, realmente; apenas aconteceu, ali, o primeiro verdadeiro encontro do rapazinho da aldeia com a sua "Cidade".
Não fiquei decepcionado, não! No decorrer daquele meu primeiro ano escolar, calcorreei tantas ruas quantas havia, e revirei todos os cantos possíveis até nada mais haver que pudesse atear a minha imaginação: a cidade, enfim, era tão real quanto a minha aldeia era para mim.
O ano lectivo estava já no fim, quando, numa tarde solarenga, me sentei num banco à sombra duma das árvores do jardim do Relvão e pensei como era bom haver lugares como aquele para resguardar -nos do sol e descansarmos as pernas por um pedaço.
O jardim era rectangular, muito comprido, e tinha um caminho ladeado de bancos e pinheiros, desde a entrada até ao fundo. Mas...onde estavam as flores? E as abelhas zumbindo, sugando-lhes os néctares? Pois é! As cidades estão cheias de maravilhas e comodidades, mas não têm campos de trigo doirado ondulando ao sabor da brisa suave e morna da tarde, nem debulhadoras separando-lhe o grão das espigas; não têm rodas de mulheres sentadas, ali mesmo, no meio da rua, fazendo manchos dos montões de maçarocas de milho à sua volta, nem a algazarra da miudagem carregando-os para o secadouro; não têm a azáfama das mulheres vindimando, nem a dos homens preparando as uvas para fazer o vinho.
Suspirei longamente...saudoso... As cidades podiam talhar a nossa cultura e requintar o nosso comportamento, mas se nos quiséssemos deliciar com leite acabadinho de tirar das vacas, morno e espumoso...só na aldeia. E eu adorava leite!
Dois mundos de encantar, mas tão diferentes nas suas particularidades. Viver os dois era um privilégio.
Voltei para casa. Estava
hospedado mesmo ao lado da Fundição Lisbonense, na Rua dos
Clérigos. Desci o longo quintal e abri a porta do varandim
ao fundo, que dava para o porto. As obras para a construção
da avenida marginal estavam em franco progresso, e, a
atestá-lo, dos lados de Santa Clara, lá vinha a locomotiva,
apitando e lançando no ar golfadas de fumo negro na cadência
do pum-pum-pum da sua máquina, de vagões cheios de pedra e
terra, que logo iriam empurrar o mar mais de encontro aos
navios atracados à doca:
"Aqueles barcos grandes que aportavam nos lugares mais exóticos do mundo".
Talvez, um dia...
No momento, era tempo de matar saudades... E o caminho era o do Norte.
José Moniz