........Na
última viagem que fizemos ao Norte de Ontário, onde
pensamos preparar o nosso último ninho, veio-me à ideia
pelo caminho, quantas vezes fazemos ninho na nossa passagem pela vida.
Os pássaros fazem-no uma vez por ano, na Primavera, o tempo
apropriado para a criação dos filhos; nós não
escolhemos estacão para o fazer, fazemo-lo quando achamos que
chegou a hora.
........Há pessoas que apenas
fizeram um ninho. Não escolheram estação. Fizeram-no
quando o casal resolveu fazer uma vida em conjunto. Antigamente, para
que isto acontecesse, tinham que casar, hoje já não
é preciso fazê-lo para viverem uma vida a dois. Talvez
por isso, hoje, se faça o ninho várias vezes.
........Por exemplo, os meus pais fizeram
apenas um ninho. Esse ninho foi preparado para eles os dois, depois
prepararam-no para a minha chegada. Durante os anos em que com eles
vivi o ninho foi renovado para os três. Após a minha
saída, continuaram com as remodelações para os
dois e hoje, passados cinquenta e cinco anos, o ninho continua no
mesmo sítio, onde a minha mãe ainda se aninha, sozinha
claro, o meu pai já se foi, eu estou longe e, um dia, o ninho
que eles fizeram com amor será abandonado. Triste, todavia,
é assim a vida.
........Eles fizeram um abrigo: construíram-no,
renovaram-no, talvez todos os anos tivessem colocado palha nova, apegaram-se
a ele ao ponto de não o quererem deixar quando o fim chega.
Outros fizeram vários ninhos como os pássaros; uma vez
por ano, alguns mais, outros menos. Julgo ter sido eu uma dessas pessoas
que me apeguei a todos eles e penso que sangrei todas as vezes que
tive que abandonar um ninho. Afinal não sou assim tão
diferente dos outros seres humanos.
........Meu primeiro ninho foi feito
numa casa velha, havia ratos lá dentro, quando chovia o ninho
ficava alagado, mas eu gostava dele. Foi nele que preparei outro ninho
para o meu primeiro filho, foi nele que acreditei no amor, numa vida
a dois, foi nele que sonhei com um ninho melhor para nós três;
mesmo assim, sonhando com algo melhor, doeu quando tive de o abandonar.
........Vim fazer meu segundo ninho aqui
no Canadá, num quarto e uma cozinha dum segundo andar. Neste
ninho não havia ratos, não chovia lá dentro,
contudo, eu não sentia conforto nele. Fazia-me lembrar o ninho
da “Toutinegra Descuidada”. Feito à pressa, como
se fosse uma obrigação. Foi nele que preparei outro
para a chegada da minha filha, tentei fazê-lo num cantinho mais
seguro para que não acontecesse com ela e com o irmão
o mesmo que acontecera com os filhos da Toutinegra.
........O terceiro ninho, num terceiro
andar, fiz o melhor que pude para que fosse a valer, porém,
sentia que não passava de um ninho falso, suspenso por vários
lados. Foi nesse ninho de faz de conta que tive que preparar outro
para a chegada do meu terceiro filho. Mesmo sabendo que não
era um ninho de verdade, teve que ser lá que aninhei os três.
Pois não havia outro.
........Após estes três
ninhos, julgo nunca mais ter feito outro, andei de galho em galho
em busca de abrigo para os meus filhotes. Era eu o próprio
ninho. Foi nele que os acalentei até ao momento em que puderam
voar com suas próprias asas. E depois, que aconteceu? Aconteceu
que não me importei mais com o ninho, foi-se desfazendo aos
poucos, uma palha hoje, outra amanhã o vento foi levando, já
não era necessário andar de galho em galho procurando
abrigo, não havia ninguém a quem dar refúgio.
........Ora, depois de tanto andar à
deriva, acontece que chegou o dia em que pensei no último ninho,
era necessário prepará-lo; chegar a velho sem ter onde
cair morto é triste. Foi ao entrar no Outono da vida que achei
ter chegado o tempo de pensar no meu próprio ninho, ninho esse
que estou fazendo com gosto. Contudo não me quero apegar muito
a ele, sei que um dia terei de o abandonar para sempre.
........As diferenças entre nós
e os pássaros não são muitas: os pássaros
também abandonam o ninho, contudo, eles não se apegam
às coisas deste Mundo como o ser humano. Após os filhos
criados, estes voam para outras paragens, fazem o seu próprio
ninho, os pais esquecem esses filhos e preparam novo ninho para novos
filhos. Alguns fazem-no no mesmo sítio, outros não.
Eles não sabem quando preparam o último ninho. Não
pensam no fim. Talvez fosse melhor sermos como eles: não pensar
no fim e viver apenas o hoje, esquecendo o ontem e não tentando
enxergar o amanhã.
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Cavadas |
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