Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.°68 de Maio II 2006

 

........Na última viagem que fizemos ao Norte de Ontário, onde pensamos preparar o nosso último ninho, veio-me à ideia pelo caminho, quantas vezes fazemos ninho na nossa passagem pela vida. Os pássaros fazem-no uma vez por ano, na Primavera, o tempo apropriado para a criação dos filhos; nós não escolhemos estacão para o fazer, fazemo-lo quando achamos que chegou a hora.
........Há pessoas que apenas fizeram um ninho. Não escolheram estação. Fizeram-no quando o casal resolveu fazer uma vida em conjunto. Antigamente, para que isto acontecesse, tinham que casar, hoje já não é preciso fazê-lo para viverem uma vida a dois. Talvez por isso, hoje, se faça o ninho várias vezes.
........Por exemplo, os meus pais fizeram apenas um ninho. Esse ninho foi preparado para eles os dois, depois prepararam-no para a minha chegada. Durante os anos em que com eles vivi o ninho foi renovado para os três. Após a minha saída, continuaram com as remodelações para os dois e hoje, passados cinquenta e cinco anos, o ninho continua no mesmo sítio, onde a minha mãe ainda se aninha, sozinha claro, o meu pai já se foi, eu estou longe e, um dia, o ninho que eles fizeram com amor será abandonado. Triste, todavia, é assim a vida.
........Eles fizeram um abrigo: construíram-no, renovaram-no, talvez todos os anos tivessem colocado palha nova, apegaram-se a ele ao ponto de não o quererem deixar quando o fim chega. Outros fizeram vários ninhos como os pássaros; uma vez por ano, alguns mais, outros menos. Julgo ter sido eu uma dessas pessoas que me apeguei a todos eles e penso que sangrei todas as vezes que tive que abandonar um ninho. Afinal não sou assim tão diferente dos outros seres humanos.
........Meu primeiro ninho foi feito numa casa velha, havia ratos lá dentro, quando chovia o ninho ficava alagado, mas eu gostava dele. Foi nele que preparei outro ninho para o meu primeiro filho, foi nele que acreditei no amor, numa vida a dois, foi nele que sonhei com um ninho melhor para nós três; mesmo assim, sonhando com algo melhor, doeu quando tive de o abandonar.
........Vim fazer meu segundo ninho aqui no Canadá, num quarto e uma cozinha dum segundo andar. Neste ninho não havia ratos, não chovia lá dentro, contudo, eu não sentia conforto nele. Fazia-me lembrar o ninho da “Toutinegra Descuidada”. Feito à pressa, como se fosse uma obrigação. Foi nele que preparei outro para a chegada da minha filha, tentei fazê-lo num cantinho mais seguro para que não acontecesse com ela e com o irmão o mesmo que acontecera com os filhos da Toutinegra.
........O terceiro ninho, num terceiro andar, fiz o melhor que pude para que fosse a valer, porém, sentia que não passava de um ninho falso, suspenso por vários lados. Foi nesse ninho de faz de conta que tive que preparar outro para a chegada do meu terceiro filho. Mesmo sabendo que não era um ninho de verdade, teve que ser lá que aninhei os três. Pois não havia outro.
........Após estes três ninhos, julgo nunca mais ter feito outro, andei de galho em galho em busca de abrigo para os meus filhotes. Era eu o próprio ninho. Foi nele que os acalentei até ao momento em que puderam voar com suas próprias asas. E depois, que aconteceu? Aconteceu que não me importei mais com o ninho, foi-se desfazendo aos poucos, uma palha hoje, outra amanhã o vento foi levando, já não era necessário andar de galho em galho procurando abrigo, não havia ninguém a quem dar refúgio.
........Ora, depois de tanto andar à deriva, acontece que chegou o dia em que pensei no último ninho, era necessário prepará-lo; chegar a velho sem ter onde cair morto é triste. Foi ao entrar no Outono da vida que achei ter chegado o tempo de pensar no meu próprio ninho, ninho esse que estou fazendo com gosto. Contudo não me quero apegar muito a ele, sei que um dia terei de o abandonar para sempre.
........As diferenças entre nós e os pássaros não são muitas: os pássaros também abandonam o ninho, contudo, eles não se apegam às coisas deste Mundo como o ser humano. Após os filhos criados, estes voam para outras paragens, fazem o seu próprio ninho, os pais esquecem esses filhos e preparam novo ninho para novos filhos. Alguns fazem-no no mesmo sítio, outros não. Eles não sabem quando preparam o último ninho. Não pensam no fim. Talvez fosse melhor sermos como eles: não pensar no fim e viver apenas o hoje, esquecendo o ontem e não tentando enxergar o amanhã.

 

 



Eduardo Ferreira
Denis Cavadas
António Justo

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