Março 2006
 
Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 63 de Março I 2006

O MÍSTICO

Nazilda Corrêa



........Na história do homem, o místico representa a tentativa de explicação da realidade que o circunda, tudo o que ele não é capaz de explicar, pela insuficiência do seu conhecimento, ele credita à divindade.
........O entendimento do místico, aqui expresso, está no modo de busca incessante do homem às suas origens justificando a finalidade de sua existência. Ao atribuir à vida significados, o indivíduo ao mesmo tempo tenta explicar-se enquanto ser no mundo.
Assim, vemos a explicação dos antigos em relação aos deuses mitológicos, criados a semelhança de si próprios e de elementos da natureza. O papel do totem nas tribos primitivas e o surgimento das religiões com os respectivos códigos de postura, esses, organizadores da moral e dos costumes. Então, da relação do homem com Deus surgem as coordenadas das relações dos homens entre si.
........A compreensão do elemento místico implica no entendimento do significado presente na atribuição dos valores e conseqüente linguagem simbólica. A forma de valoração tem dois aspectos que vale destacar, um que é o valor real, e o segundo que trata do valor acrescido, que atribuídos a pessoas e objetos constitui a linguagem simbólica criada pelo ser na busca incessante de significados principalmente para si.
........Assim, por exemplo um anel tem o significado imediato de adorno, mas, acrescido do valor simbólico pode significar compromisso afetivo, poder, etc.
........A linguagem simbólica tem estreita relação com a atribuição dos valores. Há aí a tentativa de materialização do sentimento através da linguagem, da comunicação. Logo, a influência nas formas de expressão do homem como, por exemplo, na literatura, na música, pintura, escultura, dentre outras. Enfim, nas artes em geral, apresenta-se de forma bastante diversificada. A linguagem simbólica presente nas obras dos artistas ultrapassa a época histórica. É um movimento que vai tanto a direções opostas quanto convergentes, mas sempre está presente, desde que o homem usa da imaginação nas suas explicações do que vive e sente no cotidiano.
........Dedicar-se a estudar o místico contempla estudar também o caráter mitológico e o religioso, que estão sempre imbricados. Fator esse relacionado ao misterioso, ao não explicado, ligado à divindade, ou divindades: Deus, deuses, deus-deusa, conforme as orientações mais diversas, aos países, modismos etc.
........O elemento místico contrapõe-se à vivência real, sendo próprio da vida espiritual ou contemplativa do homem. Apenas algumas doutrinas compreendem o ser na sua totalidade e os ápices místicos estão quase sempre ligados às interferências que desestabilizam o indivíduo, ou seja, aos momentos de crise. A crise serve de motivo à retomada da relação homem-divindade, sinalizando a busca pelo equilíbrio perdido, como é o caso de ocorrências posteriores a calamidades da natureza ou provocada pelo próprio homem, como, por exemplo, às guerras.
........O termo místico é mais abrangente que o termo mítico em virtude da forma em que as verdades são afirmadas ou negadas e pelo grau em que a segunda é mais fabulosa do que a primeira, sendo ‘tudo’ uma questão de fé. Mas acredito que uma e outra são fases de amadurecimento do homem na tentativa de dar as explicações sobre a sua vida e morte.
........É válido acrescentar que na atualidade há forte tendência de relacionar todas as formas do universo. Todos os elementos da natureza, estariam, portanto, imbricados. Há que se reconhecer nos trabalhos recentes essa tentativa da multidisciplinaridade em todos os setores da vida humana.

 

António Vallacorba
Eduardo Ferreira
António Justo

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