Porquê…

 

 

Algo o sacudiu ligeiramente, e uma força invisível o fez parar por um momento; depois, ele deu uns passos inseguros em frente e, sentindo uma estranha fraqueja nas pernas, caiu de joelhos; em seguida, o corpo tombou-lhe para a frente, como peso de coisa inanimada, embatendo com o rosto no chão.

O sargento Chavez, da Quarta Companhia do Batalhão de Caçadores, havia sido atingido por uma bala inimiga, a milhares de quilómetros de distância do seu país natal.

Os representantes das autoridades civis e militares, que entregaram à viúva Chavez a bandeira nacional dobrada em três bicos e que havia coberto o caixão durante as cerimónias fúnebres do marido, afirmaram-lhe, num tom de voz comovida -- própria em tais ocasiões --, que o marido havia tombado no campo de batalha como um herói: "Defendendo a liberdade da Pátria".

Entretanto, a dez quilómetros donde decorria o funeral, o sr. Gustavo, um dos maiores accionistas da poderosa companhia "Petroleum", celebrava, com a alta sociedade local, o doutoramento, em advocacia, do filho Henrique

 Sentado na sua poltrona favorita, enquanto aguardava as notícias sobre a guerra que em breve iriam ser televisionadas, ele conversava com uma das autoridades locais sobre o lugar que, a seu lado, o filho iria ocupar na companhia.

Mais tarde, precisamente antes de se recolher aos seus aposentos, ele diria ao filho que no sucesso daquela guerra estaria a garantia da longa existência da "Petroleum".

Não! O Henrique não tinha sido mobilizado para a guerra, claro. O sargento Chavez alistou-se no Exército ainda solteiro, porque não vira futuro, na vida civil, para a família que ele sonhara formar.

O candeeiro da mesinha de cabeceira iluminava fracamente o quarto. Através da janela, podia ver-se a escuridão da noite lá fora. Na alma da sra. Chavez era noite escura também.

Sentada na cama de costas apoiadas à cabeceira e de pernas enfiadas entre os lençóis, ela, de olhos parados, olhava sem ver o lugar ao lado, aonde o marido não mais dormiria. A sua mão esquerda assentava sobre a notória proeminência da sua gravidez de sete meses: sonho de ambos que só ela viveria.

Onde estaria a felicidade de ver o filho nascer, antevista pelos dois? De vê-lo dar os primeiros passos? De vê-lo crescer? De celebrar-lhe os anos e os sucessos escolares?

O rosto da sra. Chavez voltou lentamente à vida; dos seus olhos, onde se via uma tristeza magoada, soltaram-se grossas lágrimas que lhe rolaram mansamente pelas faces e se enxugaram no ventre que agora albergava o filho. Aquele filho que nunca conheceria o pai, porque o pai tinha morrido "defendendo a liberdade da Pátria".

"Tão longe...porquê, tão longe...?!" ela balbuciou.

 

                                                                  José Moniz  

 

 

 

 

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