........E
se fosse tudo mentira? Estaria senil, como dizem que ficam os velhos,
e ter-lhe-ia dado para aquilo? Ter saudades do que nunca aconteceu,
memórias de gente que nunca viu, esperanças ridículas
e sonhos ainda mais incríveis? Que pensariam os outros quando
olhavam para ele com um sorriso condescendente e lhe diziam palavras
de conforto? Talvez apenas o tratassem assim por ser a maneira mais
simples, como se faz a uma criança que não sabe nada
do mundo, diz-se-lhe que tem razão porque é mais complicado
e dá muito trabalho contar-lhe a verdade.
........E no entanto as memórias
estavam ali, fervilhando na sua cabeça. Tomavam conta dele
e deixavam-no num estado de agitação que ora parecia
alegria ora tinha mais ar de ser angústia. Às vezes
davam com ele a falar sozinho, como se falasse com alguém.
Ninguém parava para escutar esse murmurar de velho mas se o
fizessem talvez o ouvissem dizer: “Maria, queres que te traga
um pinheirinho para a lapinha?” Ou então: “Está
quase na festa, vai-se falar ao compadre para matar o porco.”
........Algumas vezes ria-se de si próprio
e dizia às empregadas do lar que não estava tonto, ainda
não, estivessem descansadas. Sabia muito bem que estava a falar
sozinho mas era essa a sua forma de lembrar-se. Elas, atarefadas com
os preparativos do Natal, abanavam a cabeça e sorriam. Nesses
momentos ninguém tinha dúvidas da sua lucidez. Daí
a um bocado, porém, era capaz de alguém fazer-lhe uma
conversa qualquer e ele apenas dar aos ombros e continuar a olhar
para onde estava a olhar. Parecia ausente e respondia coisas que não
faziam sentido.
........Já tinha passado um ano,
parecia mentira. Ficou com os olhos rasos de lágrimas. Tinha-se
aprontado com as suas melhores roupas e ficou à espera na sala
de convívio pela habitual visita da família. Parecia
que nunca mais chegava a hora e as saudades eram demasiado grandes
para ele as conseguir segurar sozinho. O almoço foi carne-de-vinho-e-alhos
mas era muito diferente da que Maria costumava fazer. Fizeram um presépio
na sala grande mas faltava-lhe o musgo que os pequenos iam procurar
aos pinheiros e também as cabrinhas. O triguinho tinha sido
deitado em cântaros de barro e não em latas de sardinha
forradas com papel de joeira.
........Entraram e saíram visitas
o dia todo, desembrulharam-se à sua frente presentes sem conta.
Havia música de Natal pelos corredores, que se misturava com
o burburinho de muitas conversas simultâneas e em tom baixo.
O dia tinha acabado e não chegou ninguém para ele.
........Lembrar-se custava-lhe tanto
ou mais do que lhe custara nesse dia. Uma pessoa cuida dos filhos,
faz sacrifícios mas também tem alegrias, e pensa que
fez o melhor que Deus lhe permitiu. Depois chega a velho e acontece-lhe
uma coisa destas. Sempre acreditou em Deus, sempre foi à missa,
baptizou os filhos e mandou-os à catequese. Pensava que merecia
um pouco de justiça. Mas o que é isso, a justiça?
As visitas começaram por ser todos os domingos mas foram diminuindo
com o passar do tempo até se resumirem aos anos e ao Natal.
........Depois...sente um nó na
garganta e um aperto no peito. Por um lado até foi bom Maria
ter ido primeiro, ao menos não passa por um desgosto destes.
E se fosse tudo mentira? Estaria senil, como dizem que ficam os velhos,
e ter-lhe-ia dado para aquilo? Imaginar uma família que não
tem? Imaginar tudo até ao mais ínfimo pormenor, até
os nomes dos filhos e dos netos, até os olhares e os gestos
e as vozes e os brinquedos que lhes deu quando eles eram pequenos
e as histórias que lhes contava e uma camisola encarnada que
teve a Isabel e um casaco castanho que era do Alberto?
........Se pudesse escolher passaria
o Natal com a sua Maria. Mas quem é que pode escolher? E como
deixar de ter esperança? Como fazer de conta que não
é quase dia de Natal outra vez? Como habituar-se a não
ter filhos depois de os ter tido uma vida inteira? O desgosto que
apanhou quando o Alberto teve uma pneumonia, nesse tempo não
havia os médicos e os conhecimentos que há agora. E
a alegria quando a Isabel passou o exame da quarta classe com a melhor
nota da turma! Quis dar-lhes o que não teve e dizia a toda
a gente: “O melhor que se pode dar a um filho é o saber.”
Saber para quê?
........Estava num destes momentos de
profunda tristeza, quieto mas com as emoções todas em
reviravolta, quando lhe falaram do auto de Natal. Pela primeira vez
iriam fazer um auto de Natal no lar e ele foi escolhido para fazer
de São José. Sorriu quando olhou para o boneco que iria
para as palhinhas, para o lugar do menino Jesus. Piscou o olho à
empregada: “Não me posso queixar, com a minha idade...”
E deu uma gargalhada. Fizeram-se vários ensaios, afinal eram
tantos os pormenores e tinha de sair tudo bem. Distraiu-se com aquilo.
Estava tão contente com o seu menino. Afinal, sempre era pai.
Talvez não estivesse senil, como dizem que ficam os velhos,
porque aquilo que sentia já tinha sentido de outras vezes e
era algo tão bom que ninguém saberia inventar se não
o tivesse vivido realmente.
........Correu bem o auto de Natal, apesar
de os pastores se terem enganado no caminho e da Nossa Senhora ter
puxado demasiado o manto para debaixo do braço e se ter esquecido
de uma deixa. Já estava tudo acabado mas ele foi-se deixando
ficar, enquanto uns despiam as suas roupagens de reis e pastores e
outros arrumavam as coisas nos seus lugares. Punha-se a olhar para
toda a gente como uma criança à espera da melhor oportunidade
para uma traquinice e logo depois fingia estar distraído a
olhar para o presépio. Conseguiu. Quando ninguém estava
a ver escapuliu-se para o quarto com o seu “menino”. Na
manhã seguinte encontraram-no com o menino nos braços.
Estava frio e não se mexia. ........Mas
tinha nos lábios um sorriso tranquilo.