Novembro 2005
 
Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 58 de Novembro 2005

A Vida

........Foi numa manhã florida de Maio, entre os arbustos frescos e o perfume das giestas duma pequena serra, que nasceu a Vida. Era uma criança saudável, risonha e feliz, por ter o Mundo como pai e, como mãe, a Natureza.
A Vida crescia saudável e cheia de alegria junto dos seus progenitores. Amava-os e por eles era amada e protegida. Com eles percorria vales, serras, oceanos, enfim, tudo o que seus Pais eram e tinham para lhe dar.
........Adolescente, bela, continuava sobre o domínio e protecção dos Pais. Porém, já não era necessário por eles ser acompanhada nas suas caminhadas pelos montes e planícies até às margens dos rios, onde ficava horas e horas olhando as águas que caíam das grandes ou pequenas cataratas, fazendo cachão ao baterem fortemente no rio, para depois deslizarem até desaguarem no mar.
........Adorava ver o saltitar dos peixes felizes na pureza das águas, o grasnar dos patos e das rãs nos pequenos regatos, o esvoaçar dos pássaros trespassando os campos, andando no ar, ora sobre as árvores, ora roçando as nuvens; com eles voava também. Voava, voava, por esse Mundo sem fim, sem pressa de chegar ou voltar, parando nas grandes montanhas gozando o ar puro e fresco dos Pais, sorrindo ao pensar que nada os destruiria. Sempre sorridente, reiniciava voo e, assim, continuava parando aqui e ali extasiada com tanta beleza.
........Sentada no colo do Pai, numa das suas grandes florestas, respirava a brisa fresca da Mãe. Olhando o belo cenário, seus olhos brilhavam de felicidade por existir. O Sol quente e saudável acariciava-lhe o corpo e, aquecida por ele, embalada pelo sussurro do vento e pelo som harmonioso das cigarras e da passarada, adormeceu. Um sono longo e tranquilo cheio de belos sonhos.
........Acordou com o ruído da chuva que, fortemente, caía sobre as folhas ainda tenras do arvoredo e das plantas silvestres. Algumas gotas caíram-lhe em cima. Embevecida com tudo aquilo, saiu de entre o arvoredo e correu para o vale. De braços abertos, cirandava entre o trevo e as papoilas acariciada pela água pura e fresca. Sempre rodopiando, com o vestido e os longos cabelos molhados, cantarolava. A luz de um relâmpago e o estrépito forte do trovão fê-la parar e sorrir ao ouvir a ira da Mãe; aliás, tudo o que dela vinha era maravilhoso, até mesmo a própria ira. Encantada e feliz, sentou-se entre o trevo encharcado de água e por ali ficou até a noite chegar e a chuva parar. A Lua já vinha alta quando à pequena serra voltou. Na quietude da luarizada noite, embalada pelo mavioso som da Mãe adormeceu.
........Acordou com o ramalhar das árvores. O vento soprava do noroeste trazendo até ela a algazarra das crianças. Levantou-se e, por entre as giestas molhadas pelo orvalho da manhã, seguiu na direcção daquelas vozes tão cristalinas. Sentou-se no galho de uma das árvores do parque onde elas brincavam, à volta de uma fonte, e ficou admirando aqueles familiares. Após algum tempo sobrevoou pela cidade. Ficou triste ao notar que o progresso destruía a Mãe. Era necessário evitar que continuasse. Mas como?- pensou a Vida.
........Voltou à serra, ao passar pelo jardim infantil lembrou-se das crianças: os homens, ao destruírem a natureza, destruíam-nas também. Triste, continuou o seu caminho até à montanha. Ao chegar ao vale sentou-se no relvado, sentia-se um pouco cansada e notou diferença na atmosfera: a que respirava era fresca, leve e saudável, a da cidade era pesada. Pensativa, desceu até à beira do lago e ficou olhando o remanso das águas límpidas que um dia se tornariam turvas pela falta de compreensão da humanidade.
........Tristonha, as lágrimas corriam-lhe; suspirava pelo tempo em que percorria o undo gozando a beleza dos pais. Acabrunhada, voltou ao seu canto, aos arbustos frescos e o perfume das giestas. Já na serra relembrou a Mãe, a mulher que era bela mas que, um dia, ficaria em ruínas por falta de entendimento do povo. Ao ser destruída, o Pai morreria também e ela ficaria órfã, respirando a poluição feita pelos homens até ser destruída também. Pensou em voar de novo mas não o fez; por ali ficou e a fadiga sepultou-a em profundo sono.

Candeias Leal



Alfredo Mendes dos Santos
Natércia
de Raimundo Delgado

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