A
Vida
........Foi numa manhã
florida de Maio, entre os arbustos frescos e o perfume das
giestas duma pequena serra, que nasceu a Vida. Era uma criança
saudável, risonha e feliz, por ter o Mundo como pai
e, como mãe, a Natureza.
A Vida crescia saudável e cheia de alegria junto dos
seus progenitores. Amava-os e por eles era amada e protegida.
Com eles percorria vales, serras, oceanos, enfim, tudo o que
seus Pais eram e tinham para lhe dar.
........Adolescente, bela, continuava
sobre o domínio e protecção dos Pais.
Porém, já não era necessário por
eles ser acompanhada nas suas caminhadas pelos montes e planícies
até às margens dos rios, onde ficava horas e
horas olhando as águas que caíam das grandes
ou pequenas cataratas, fazendo cachão ao baterem fortemente
no rio, para depois deslizarem até desaguarem no mar.
........Adorava ver o saltitar
dos peixes felizes na pureza das águas, o grasnar dos
patos e das rãs nos pequenos regatos, o esvoaçar
dos pássaros trespassando os campos, andando no ar,
ora sobre as árvores, ora roçando as nuvens;
com eles voava também. Voava, voava, por esse Mundo
sem fim, sem pressa de chegar ou voltar, parando nas grandes
montanhas gozando o ar puro e fresco dos Pais, sorrindo ao
pensar que nada os destruiria. Sempre sorridente, reiniciava
voo e, assim, continuava parando aqui e ali extasiada com
tanta beleza.
........Sentada no colo do Pai,
numa das suas grandes florestas, respirava a brisa fresca
da Mãe. Olhando o belo cenário, seus olhos brilhavam
de felicidade por existir. O Sol quente e saudável
acariciava-lhe o corpo e, aquecida por ele, embalada pelo
sussurro do vento e pelo som harmonioso das cigarras e da
passarada, adormeceu. Um sono longo e tranquilo cheio de belos
sonhos.
........Acordou com o ruído
da chuva que, fortemente, caía sobre as folhas ainda
tenras do arvoredo e das plantas silvestres. Algumas gotas
caíram-lhe em cima. Embevecida com tudo aquilo, saiu
de entre o arvoredo e correu para o vale. De braços
abertos, cirandava entre o trevo e as papoilas acariciada
pela água pura e fresca. Sempre rodopiando, com o vestido
e os longos cabelos molhados, cantarolava. A luz de um relâmpago
e o estrépito forte do trovão fê-la parar
e sorrir ao ouvir a ira da Mãe; aliás, tudo
o que dela vinha era maravilhoso, até mesmo a própria
ira. Encantada e feliz, sentou-se entre o trevo encharcado
de água e por ali ficou até a noite chegar e
a chuva parar. A Lua já vinha alta quando à
pequena serra voltou. Na quietude da luarizada noite, embalada
pelo mavioso som da Mãe adormeceu.
........Acordou com o ramalhar
das árvores. O vento soprava do noroeste trazendo até
ela a algazarra das crianças. Levantou-se e, por entre
as giestas molhadas pelo orvalho da manhã, seguiu na
direcção daquelas vozes tão cristalinas.
Sentou-se no galho de uma das árvores do parque onde
elas brincavam, à volta de uma fonte, e ficou admirando
aqueles familiares. Após algum tempo sobrevoou pela
cidade. Ficou triste ao notar que o progresso destruía
a Mãe. Era necessário evitar que continuasse.
Mas como?- pensou a Vida.
........Voltou à serra,
ao passar pelo jardim infantil lembrou-se das crianças:
os homens, ao destruírem a natureza, destruíam-nas
também. Triste, continuou o seu caminho até
à montanha. Ao chegar ao vale sentou-se no relvado,
sentia-se um pouco cansada e notou diferença na atmosfera:
a que respirava era fresca, leve e saudável, a da cidade
era pesada. Pensativa, desceu até à beira do
lago e ficou olhando o remanso das águas límpidas
que um dia se tornariam turvas pela falta de compreensão
da humanidade.
........Tristonha, as lágrimas
corriam-lhe; suspirava pelo tempo em que percorria o undo
gozando a beleza dos pais. Acabrunhada, voltou ao seu canto,
aos arbustos frescos e o perfume das giestas. Já na
serra relembrou a Mãe, a mulher que era bela mas que,
um dia, ficaria em ruínas por falta de entendimento
do povo. Ao ser destruída, o Pai morreria também
e ela ficaria órfã, respirando a poluição
feita pelos homens até ser destruída também.
Pensou em voar de novo mas não o fez; por ali ficou
e a fadiga sepultou-a em profundo sono.
Candeias
Leal
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Mendes dos Santos |
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| Natércia |
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Raimundo Delgado
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