Outubro 2005
 
Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 57 de Outubro II 2005


O SÓTÃO



........Chamávamos corruptelamente de "sote". Era uma espécie de mezanino e localizava-se no ponto interno da junção das duas paredes que formavam, na parte externa, a esquina da rua, sobre o salão da casa. Este, o salão, tinha cinco portas e duas janelas externas quase que permanentemente abertas para as duas ruas; e, incrivelmente, o sótão não tinha nenhuma abertura visível externamente. O acesso era feito através de uma escada de madeira, cujo corrimão (que evidentemente servia às vezes de escorregador às avessas), ao final da descida, ou início da subida de quem o fazia a pé, mostrava esculpida em madeira a cabeça de uma cobra, que fazia, entre outras coisas lá contidas, o fascínio das crianças que freqüentavam a casa. Fazia parte desse fascínio também as coisas que lá eram guardadas. Eram caixotes diversos, algumas malas e maletas e velhos baús de couro natural com inscrições em tachas de cobre, que formavam desenhos e iniciais dos nomes de família. Neles continham tudo o que se podia esperar: velhas revistas, documentos, fotos, livros, roupas e vários outros objetos pessoais de pessoas já falecidas e que eram guardados pela minha mãe, com recomendação proibitiva do seu manuseio por parte de quem quer que fosse. Enquanto no salão eram praticamente expostos as celas, os arreios, os "pelegos" e outros objetos típicos de adorno e vestimenta adequada para montaria de cavalos e éguas, outra paixão do António Martins, meu pai. Esses mesmos objetos, quando em desuso, partiam para a parte de cima, lá permanecendo por muito tempo, sem nenhuma razão que eu consiga entender para explicar até hoje, pois não eram doados quando em desuso, o que era de costume e típico do meu pai.
........No início da década de sessenta, quando eu contava seis anos de idade, veio a falecer, afogado e no dia em que completava quatorze anos, um dos meus irmãos. Foi uma tragédia, e foram situações que até hoje, rememorando, guardo, momento a momento, daquele fatídico dia. Como sempre acontecia, depois de algum tempo, minha mãe passou para o sótão os objetos pessoais do meu irmão falecido, tais como as roupas, calçados, relógio, brinquedos, uma bicicleta e, como era colecionador, muitas revistas em quadrinhos (principalmente "O Fantasma" e "Tarzan") e petecas (bolas de gude), pois tinha sido realmente um zeloso colecionador de ambas. A possibilidade de poder tocar e ver tais coleções, coisas que me eram proibidas pelo mesmo quando em vida, me fizeram perder o medo e a insegurança de subir até o sótão e lá permanecer, pois até aquele momento nada me havia feito criar coragem para permanecer por lá, o mesmo acontecendo com as outras crianças. A curiosidade e a descoberta da leitura de tantos livros e revistas, as possibilidades de ver tão proibidos objetos fizeram-me assíduo freqüentador do sote. Para tanto, consegui um pedaço de "telha de vidro" para que pudesse ter uma visão melhor, e, cuidadosamente, para não fazer barulhos e despertar a atenção, fazia as minhas subidas nos horários de maior movimento no salão, onde freqüentemente se jogava ping-pong e outros jogos.
........Por volta dos meus nove anos, já intimo do lugar, já descoberto o segredo e com a bênção da minha mãe, resolvi fazer eu mesmo uma limpeza, e passei a mudar-me gradativamente para lá. Primeiro construí estantes utilizando caixotes de madeira que conseguia com o comerciante em frente. Separei dois cômodos utilizando madeira, folhas de flandres e papelão, e acabei reservando um desses cômodos só para mim, que passou a ser meu refúgio para leitura. Neste compasso, finalmente passei a dormir no sótão por mais ou menos três anos.
........Foi lá, no sótão, que travei os primeiros conhecimentos com a obra de Lobato, Machado de Assis, os poemas épicos de Castro Alves (sabia de cor "Vozes D'África"," Espumas Flutuantes" e "Navio Negreiro"), Mark Tawin, Laura Wilder, Vitor Hugo, Michel Zevaco, Charles Dickens; e era onde decorava poemas preferidos e lia, às vezes à noite, deitado com a lamparina no peito, muitas, mas muitas fotonovelas históricas, e, na grande maioria, adaptações, também em fotonovelas, de grandes romances que conseguia com Dona Guilmar Salomão Monsálem, professora aposentada e grande colecionadora de revistas, de quem caí nas graças, graças a Deus, tendo me tornado um dos amigos a quem ela cedia com freqüência parte da sua coleção, composta não só de revistas, mas também de livros, interessantíssimos livros, que merecem um outro capitulo, sendo ela personagem que merece também um capitulo à parte. Ali, mais tarde, li todo...E o vento levou, além de iniciar a leitura da obra de Jorge Amado.
........Foi lá, no sótão, portanto, que me tornei um leitor, assíduo leitor, fato do qual até hoje não me arrependo.
........Quanto aos objetos, perderam-se no tempo...


Benedito Cássio Carvalho Martins
PROFESSOR
Todos direitos autorais reservado ao autor
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