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O
SÓTÃO
........Chamávamos
corruptelamente de "sote". Era uma espécie de
mezanino e localizava-se no ponto interno da junção
das duas paredes que formavam, na parte externa, a esquina da
rua, sobre o salão da casa. Este, o salão, tinha
cinco portas e duas janelas externas quase que permanentemente
abertas para as duas ruas; e, incrivelmente, o sótão
não tinha nenhuma abertura visível externamente.
O acesso era feito através de uma escada de madeira, cujo
corrimão (que evidentemente servia às vezes de escorregador
às avessas), ao final da descida, ou início da subida
de quem o fazia a pé, mostrava esculpida em madeira a cabeça
de uma cobra, que fazia, entre outras coisas lá contidas,
o fascínio das crianças que freqüentavam a
casa. Fazia parte desse fascínio também as coisas
que lá eram guardadas. Eram caixotes diversos, algumas
malas e maletas e velhos baús de couro natural com inscrições
em tachas de cobre, que formavam desenhos e iniciais dos nomes
de família. Neles continham tudo o que se podia esperar:
velhas revistas, documentos, fotos, livros, roupas e vários
outros objetos pessoais de pessoas já falecidas e que eram
guardados pela minha mãe, com recomendação
proibitiva do seu manuseio por parte de quem quer que fosse. Enquanto
no salão eram praticamente expostos as celas, os arreios,
os "pelegos" e outros objetos típicos de adorno
e vestimenta adequada para montaria de cavalos e éguas,
outra paixão do António Martins, meu pai. Esses
mesmos objetos, quando em desuso, partiam para a parte de cima,
lá permanecendo por muito tempo, sem nenhuma razão
que eu consiga entender para explicar até hoje, pois não
eram doados quando em desuso, o que era de costume e típico
do meu pai.
........No início da década
de sessenta, quando eu contava seis anos de idade, veio a falecer,
afogado e no dia em que completava quatorze anos, um dos meus
irmãos. Foi uma tragédia, e foram situações
que até hoje, rememorando, guardo, momento a momento, daquele
fatídico dia. Como sempre acontecia, depois de algum tempo,
minha mãe passou para o sótão os objetos
pessoais do meu irmão falecido, tais como as roupas, calçados,
relógio, brinquedos, uma bicicleta e, como era colecionador,
muitas revistas em quadrinhos (principalmente "O Fantasma"
e "Tarzan") e petecas (bolas de gude), pois tinha sido
realmente um zeloso colecionador de ambas. A possibilidade de
poder tocar e ver tais coleções, coisas que me eram
proibidas pelo mesmo quando em vida, me fizeram perder o medo
e a insegurança de subir até o sótão
e lá permanecer, pois até aquele momento nada me
havia feito criar coragem para permanecer por lá, o mesmo
acontecendo com as outras crianças. A curiosidade e a descoberta
da leitura de tantos livros e revistas, as possibilidades de ver
tão proibidos objetos fizeram-me assíduo freqüentador
do sote. Para tanto, consegui um pedaço de "telha
de vidro" para que pudesse ter uma visão melhor, e,
cuidadosamente, para não fazer barulhos e despertar a atenção,
fazia as minhas subidas nos horários de maior movimento
no salão, onde freqüentemente se jogava ping-pong
e outros jogos.
........Por volta dos meus nove anos,
já intimo do lugar, já descoberto o segredo e com
a bênção da minha mãe, resolvi fazer
eu mesmo uma limpeza, e passei a mudar-me gradativamente para
lá. Primeiro construí estantes utilizando caixotes
de madeira que conseguia com o comerciante em frente. Separei
dois cômodos utilizando madeira, folhas de flandres e papelão,
e acabei reservando um desses cômodos só para mim,
que passou a ser meu refúgio para leitura. Neste compasso,
finalmente passei a dormir no sótão por mais ou
menos três anos.
........Foi lá, no sótão,
que travei os primeiros conhecimentos com a obra de Lobato, Machado
de Assis, os poemas épicos de Castro Alves (sabia de cor
"Vozes D'África"," Espumas Flutuantes"
e "Navio Negreiro"), Mark Tawin, Laura Wilder, Vitor
Hugo, Michel Zevaco, Charles Dickens; e era onde decorava poemas
preferidos e lia, às vezes à noite, deitado com
a lamparina no peito, muitas, mas muitas fotonovelas históricas,
e, na grande maioria, adaptações, também
em fotonovelas, de grandes romances que conseguia com Dona Guilmar
Salomão Monsálem, professora aposentada e grande
colecionadora de revistas, de quem caí nas graças,
graças a Deus, tendo me tornado um dos amigos a quem ela
cedia com freqüência parte da sua coleção,
composta não só de revistas, mas também de
livros, interessantíssimos livros, que merecem um outro
capitulo, sendo ela personagem que merece também um capitulo
à parte. Ali, mais tarde, li todo...E o vento levou,
além de iniciar a leitura da obra de Jorge Amado.
........Foi lá, no sótão,
portanto, que me tornei um leitor, assíduo leitor, fato
do qual até hoje não me arrependo.
........Quanto aos objetos, perderam-se
no tempo...
Benedito Cássio Carvalho Martins
PROFESSOR
Todos direitos autorais reservado ao autor
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