Outubro 2005
 
Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 56 de Outubro I 2005


De Volta à Escola

......Glória, enquanto bebe o café da manhã, revolve os folhetos cheios de publicidade que se encontram em cima da mesa da sala de jantar. Lê as mesmas palavras que, por hábito ou saudade, lia todos os anos por aquele tempo: "De volta à escola". Esta frase, escrita em todo o comércio de pronto a vestir, de calçado ou de materiais escolares, faziam- lhe sentir uma grande saudade de quando tinha os filhos pequenos e os preparava para um novo ano escolar.
......Não frequentava as lojas de nome, onde tudo era mais caro; suas finanças não eram assim tão abastadas. Porém, mesmo onde tudo era mais barato; como o Biway, sempre encontrava algo que lhe agradava para vestir os filhos a seu gosto: a calça azul, bege, ou castanha com as camisas a condizer, os ténis, enfim... Eles nunca entravam num novo ano escolar sem roupa nova. Esta tarefa, cuidar dos filhos, era uma das poucas alegrias de Glória.
......Contudo, ficou surpresa consigo própria; ao olhar tudo aquilo já não sentiu a mesma saudade dos anos anteriores, essa nostalgia que sentira todos os outros anos passados. Porquanto, algo estava a mudar dentro dela. Sentia que seus sentimentos morriam aos poucos ou, talvez, estivessem a voltar-se para outros horizontes.
......Pensou nele, nesse alguém que agora mais do que ninguém lhe preenchia o vácuo, esse vazio que sempre esteve cheio de nada, a presença dos filhos tapara-lhe essa lacuna que, só agora notara, sempre existira dentro de si.
......Voltou a olhar os folhetos, folheou-os mas nada de especial encontrou. Os que ocuparam sua vida durante anos já não precisavam de nada daquilo; tinham crescido, estavam criados, educados, não necessitavam dela. Hoje, bem encaminhados na vida, viviam-na. Era essa a única riqueza que levaria consigo para a Ilha: o bem estar deles e o grande e pesado livro de 10.850 páginas, uma por cada dia vivido fora da Ilha.
......Ensimesmada, relembra esse grande livro que fora a sua vida no Canadá, tanta página, algumas escritas, outras em branco e poucas boas recordações. Havia algumas folhas, escritas com tinta cor de rosa nas quais, talvez um dia, com o passar do tempo, mergulhasse a fundo e algo de bom encontrasse, além da infância dos filhos. Algo que tornasse esse livro mais belo. Que o olhasse, abrisse e sorrisse ao ver que não passara trinta anos da sua vida à toa.
......Voltou a pensar nesse alguém; essa pessoa que tanta falta lhe fazia, alguém com quem sonhara toda a sua vida mas que, infelizmente, nunca havia encontrado. Tinha a certeza que essa pessoa existia, só não sabia em que encruzilhada e já se sentia cansada para percorrer as encruzilhadas da vida, porquanto ficaria como estava. Talvez um dia, sem esperar, ele aparecesse. O que tivesse de ser, seria.
......Após beber o café, levantou-se, deitou os folhetos no lixo e, em passos lentos, calcorreou o soalho envernizado de todos os quartos da casa. A sua casa de muitos anos, mas que, agora, lhe parecia estranha, uma espécie de prisão que ela própria fizera para si. Era necessário sair dela.
......Sabia que iria sentir saudades de algumas coisas: os filhos, a sua gatinha, as amigas e, quem sabe, talvez um dia recordasse com nostalgia a grande cidade onde fora morrendo aos poucos... Olhou as malas prontas para a próxima abalada. Voltava para a Ilha, esse pedaço de terra no meio do Oceano onde se sentia livre como um pássaro. Na Ilha era outra pessoa, nela queria passar o resto dos seus dias na casa antiga onde nascera.
......Saiu para o pátio da casa e relembrou algumas coisas, em especial o Chico, o pobre animal que, tal como ela, ali viveu a sua vida enclausurada. Foi à frente da casa ver as suas flores; as rosas, as hortenses que lhe oferecera um dos filhos no dia da mãe. Essas, gostaria de as poder levar consigo para a Ilha. As ofertas deles e dela eram algo sagrado para Glória, levaria tudo menos as flores: as fotos deles, os pratinhos, os copos de loiça fina com a frase "To Mother with Love".
......Voltou para casa. No chão da sala de jantar estava um dos folhetos publicitários. Pegou nele e voltou a ler a mesma frase enquanto o pranto lhe banhava as faces: "De volta à escola".

Candeias Leal
Candeias@candeiasleal.com

 

 

 




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