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De
Volta à Escola
......Glória,
enquanto bebe o café da manhã, revolve os folhetos
cheios de publicidade que se encontram em cima da mesa da sala
de jantar. Lê as mesmas palavras que, por hábito
ou saudade, lia todos os anos por aquele tempo: "De volta
à escola". Esta frase, escrita em todo o comércio
de pronto a vestir, de calçado ou de materiais escolares,
faziam- lhe sentir uma grande saudade de quando tinha os filhos
pequenos e os preparava para um novo ano escolar.
......Não
frequentava as lojas de nome, onde tudo era mais caro; suas finanças
não eram assim tão abastadas. Porém, mesmo
onde tudo era mais barato; como o Biway, sempre encontrava algo
que lhe agradava para vestir os filhos a seu gosto: a calça
azul, bege, ou castanha com as camisas a condizer, os ténis,
enfim... Eles nunca entravam num novo ano escolar sem roupa nova.
Esta tarefa, cuidar dos filhos, era uma das poucas alegrias de
Glória.
......Contudo,
ficou surpresa consigo própria; ao olhar tudo aquilo já
não sentiu a mesma saudade dos anos anteriores, essa nostalgia
que sentira todos os outros anos passados. Porquanto, algo estava
a mudar dentro dela. Sentia que seus sentimentos morriam aos poucos
ou, talvez, estivessem a voltar-se para outros horizontes.
......Pensou
nele, nesse alguém que agora mais do que ninguém
lhe preenchia o vácuo, esse vazio que sempre esteve cheio
de nada, a presença dos filhos tapara-lhe essa lacuna que,
só agora notara, sempre existira dentro de si.
......Voltou
a olhar os folhetos, folheou-os mas nada de especial encontrou.
Os que ocuparam sua vida durante anos já não precisavam
de nada daquilo; tinham crescido, estavam criados, educados, não
necessitavam dela. Hoje, bem encaminhados na vida, viviam-na.
Era essa a única riqueza que levaria consigo para a Ilha:
o bem estar deles e o grande e pesado livro de 10.850 páginas,
uma por cada dia vivido fora da Ilha.
......Ensimesmada,
relembra esse grande livro que fora a sua vida no Canadá,
tanta página, algumas escritas, outras em branco e poucas
boas recordações. Havia algumas folhas, escritas
com tinta cor de rosa nas quais, talvez um dia, com o passar do
tempo, mergulhasse a fundo e algo de bom encontrasse, além
da infância dos filhos. Algo que tornasse esse livro mais
belo. Que o olhasse, abrisse e sorrisse ao ver que não
passara trinta anos da sua vida à toa.
......Voltou
a pensar nesse alguém; essa pessoa que tanta falta lhe
fazia, alguém com quem sonhara toda a sua vida mas que,
infelizmente, nunca havia encontrado. Tinha a certeza que essa
pessoa existia, só não sabia em que encruzilhada
e já se sentia cansada para percorrer as encruzilhadas
da vida, porquanto ficaria como estava. Talvez um dia, sem esperar,
ele aparecesse. O que tivesse de ser, seria.
......Após
beber o café, levantou-se, deitou os folhetos no lixo e,
em passos lentos, calcorreou o soalho envernizado de todos os
quartos da casa. A sua casa de muitos anos, mas que, agora, lhe
parecia estranha, uma espécie de prisão que ela
própria fizera para si. Era necessário sair dela.
......Sabia
que iria sentir saudades de algumas coisas: os filhos, a sua gatinha,
as amigas e, quem sabe, talvez um dia recordasse com nostalgia
a grande cidade onde fora morrendo aos poucos... Olhou as malas
prontas para a próxima abalada. Voltava para a Ilha, esse
pedaço de terra no meio do Oceano onde se sentia livre
como um pássaro. Na Ilha era outra pessoa, nela queria
passar o resto dos seus dias na casa antiga onde nascera.
......Saiu
para o pátio da casa e relembrou algumas coisas, em especial
o Chico, o pobre animal que, tal como ela, ali viveu a sua vida
enclausurada. Foi à frente da casa ver as suas flores;
as rosas, as hortenses que lhe oferecera um dos filhos no dia
da mãe. Essas, gostaria de as poder levar consigo para
a Ilha. As ofertas deles e dela eram algo sagrado para Glória,
levaria tudo menos as flores: as fotos deles, os pratinhos, os
copos de loiça fina com a frase "To Mother with Love".
......Voltou
para casa. No chão da sala de jantar estava um dos folhetos
publicitários. Pegou nele e voltou a ler a mesma frase
enquanto o pranto lhe banhava as faces: "De volta à
escola".
Candeias
Leal
Candeias@candeiasleal.com
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