Agosto 2005
 
       
Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 53 de Agosto I 2005


Cartas da América

Uma das coisas que não consigo perder é o meu café expresso. Depois de andar por cá três anos, consigo comer um sorveto num copo de papel, uma sandes embrulhada em papel pardo, mas não consigo beber um copo de café com leite, o que aqui se chama "regular". Se for sem leite, temos que pedir "café preto".
........Quando cheguei cá, e me apetecia um expresso, o sítio mais perto era o Starbucks, que ficava a vinte minutos donde eu morava. Não é a mesma coisa que o nosso expresso, mas imita bem. Mais tarde, descobri mesmo perto onde moro, outro lugar, tipo cave, pois precisamos de descer alguns sete ou oito degraus. Chama-se "Serafim's Place". Não sei se foi o nome, as fotos nas vitrines ou a aparência da fachada, mas senti-me atraída.
........Entrei e escolhi uma mesa encostada à parede, longe do balcão. Percebi que estava num café de raízes europeias. Pedi um expresso em português. O moço que me atendeu, magro, geneticamente moreno, de cabelo cortado bem curto, bigode finino, percebeu-me. Aliás, era grego. Conhecemo-nos por duas semanas, pois regressou à Europa depois de acabar o curso de engenharia bioquímica no Massachusetts Institute of Technology.
........No outro dia, o senhor Andreotti, dono do café, mostrou-me um postal que o George mandou: "Caros amigos, estou com imensas saudades de vocês todos. Volto qualquer dia. Adoro-vos. George."
........Não preciso de dizer que vou diariamente ao Serafim. Tomo o meu expresso, trabalho e estudo no meu computador portátil, passo os olhos por algum jornal deixado por algum cliente e ainda dou dois dedos de conversa com o Panjak, um amigo turco que mora no mesmo prédio que eu, trabalha numa fábrica de pneus e aparece muitas vezes no Serafim. Antes, falava-me ele de futebol, mas ultimamente farta-se de dizer que não é justo que o seu país não pertença à União Europeia. Argumenta ele que a União deve cumprir com os seus princípios geopolíticos para os quais foi talhada e não rejeitar a Turquia pelo facto de não ser professadamente cristã. Mistura-me ele Jean Monnet, o papa João Paulo II, já falecido, e Valéry Giscard D'Estaing. Globaliza-me o neoliberalismo europeu duma maneira que fico sem saber se a União é a única saída para o capitalismo europeu, a correcção dos fumos da Índia, ou o alicerce doutro imperialismo através duma europa refeudalizada.
........Na minha simplicidade de ilhoa, acabo por concluir que quem se lixa é o mexilhão, tal como se lixaram os produtores do vinho do cheiro e os pescadores da pesca artesanal. E depois temos os pequenos comerciantes como tivemos os fruticultores. E em vez de serem os homens da uva, os pescadores, os pequenos comerciantes e os fruticultores a unirem-se, não senhor! É o neoliberalismo europeu a fazê-lo, por necessidade. (Não vá o diabo fazer uma das suas!)
........Tomar o expresso no Serafim traz-me ao que sou. As mesas redondas rodeadas por quatro cadeiras. Um cliente a tomar café lendo um jornal ao mesmo tempo. Noutra mesa, outro a bater insistentemente o pacotinho de açucar antes de o abrir. Cada um trata de si, sabendo que estamos todos ali. Ligados pelo cheiro que vem da máquina italiana. Diferente do que estar em pé, em fila, para pedir um copo de papel, com muito mais café do que um expresso.
........Enquanto por cá se paga pela quantidade, aí pagamos pela mesa, pela chávena, o pires, a colherzinha. O espaço que procuramos para refazer as ideias e reflectirmos na nossa memória europeia, que pode-nos muito bem ensinar a ver o que de bom também há por cá. Não esqueçamos que os de cá vieram daí.


Marta Taveira




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