Uma
das coisas que não consigo perder é o meu café
expresso. Depois de andar por cá três anos, consigo comer
um sorveto num copo de papel, uma sandes embrulhada em papel pardo,
mas não consigo beber um copo de café com leite, o que
aqui se chama "regular". Se for sem leite, temos que pedir
"café preto".
........Quando cheguei cá, e me
apetecia um expresso, o sítio mais perto era o Starbucks, que
ficava a vinte minutos donde eu morava. Não é a mesma
coisa que o nosso expresso, mas imita bem. Mais tarde, descobri mesmo
perto onde moro, outro lugar, tipo cave, pois precisamos de descer alguns
sete ou oito degraus. Chama-se "Serafim's Place". Não
sei se foi o nome, as fotos nas vitrines ou a aparência da fachada,
mas senti-me atraída.
........Entrei e escolhi uma mesa encostada
à parede, longe do balcão. Percebi que estava num café
de raízes europeias. Pedi um expresso em português. O moço
que me atendeu, magro, geneticamente moreno, de cabelo cortado bem curto,
bigode finino, percebeu-me. Aliás, era grego. Conhecemo-nos por
duas semanas, pois regressou à Europa depois de acabar o curso
de engenharia bioquímica no Massachusetts Institute of Technology.
........No outro dia, o senhor Andreotti,
dono do café, mostrou-me um postal que o George mandou: "Caros
amigos, estou com imensas saudades de vocês todos. Volto qualquer
dia. Adoro-vos. George."
........Não preciso de dizer que
vou diariamente ao Serafim. Tomo o meu expresso, trabalho e estudo no
meu computador portátil, passo os olhos por algum jornal deixado
por algum cliente e ainda dou dois dedos de conversa com o Panjak, um
amigo turco que mora no mesmo prédio que eu, trabalha numa fábrica
de pneus e aparece muitas vezes no Serafim. Antes, falava-me ele de
futebol, mas ultimamente farta-se de dizer que não é justo
que o seu país não pertença à União
Europeia. Argumenta ele que a União deve cumprir com os seus
princípios geopolíticos para os quais foi talhada e não
rejeitar a Turquia pelo facto de não ser professadamente cristã.
Mistura-me ele Jean Monnet, o papa João Paulo II, já falecido,
e Valéry Giscard D'Estaing. Globaliza-me o neoliberalismo europeu
duma maneira que fico sem saber se a União é a única
saída para o capitalismo europeu, a correcção dos
fumos da Índia, ou o alicerce doutro imperialismo através
duma europa refeudalizada.
........Na minha simplicidade de ilhoa,
acabo por concluir que quem se lixa é o mexilhão, tal
como se lixaram os produtores do vinho do cheiro e os pescadores da
pesca artesanal. E depois temos os pequenos comerciantes como tivemos
os fruticultores. E em vez de serem os homens da uva, os pescadores,
os pequenos comerciantes e os fruticultores a unirem-se, não
senhor! É o neoliberalismo europeu a fazê-lo, por necessidade.
(Não vá o diabo fazer uma das suas!)
........Tomar o expresso no Serafim traz-me
ao que sou. As mesas redondas rodeadas por quatro cadeiras. Um cliente
a tomar café lendo um jornal ao mesmo tempo. Noutra mesa, outro
a bater insistentemente o pacotinho de açucar antes de o abrir.
Cada um trata de si, sabendo que estamos todos ali. Ligados pelo cheiro
que vem da máquina italiana. Diferente do que estar em pé,
em fila, para pedir um copo de papel, com muito mais café do
que um expresso.
........Enquanto por cá se paga
pela quantidade, aí pagamos pela mesa, pela chávena, o
pires, a colherzinha. O espaço que procuramos para refazer as
ideias e reflectirmos na nossa memória europeia, que pode-nos
muito bem ensinar a ver o que de bom também há por cá.
Não esqueçamos que os de cá vieram daí.
Marta Taveira
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Amilcar
Spencer
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António
Justo
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António
Vallacorba
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