Março 2005
 
         Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 43 de Março I 2005

Baboseiras

........Maldito despertador. Ele ainda ressona. Tenho de acordá-lo e ele vai resmungar, como de costume. Não dormi nada com dores nas costas. E agora que já estava a amadornar, tenho de começar na lida. Engomar-lhe a roupa, engraxar-lhe os sapatos, até pôr-lhe o pequeno-almoço em cima da mesa e, como se já não bastasse, implorara-lhe para o tomar.
........Será que são todos assim ou só eu é que tive esta sorte na vida? Minha mãe ainda sofreu mais. Meu pai era terrível, mas ela nunca se queixava. Pelo menos que eu me lembre. Mesmo, de que é que adiantava?
........Eu também estou aqui pensando nisto mas tenho é de me levantar, que há muitos afazeres à espera. Tenho que me deixar de baboseiras. Afinal que remédio tenho eu? Só com a terceira classe.... Os meus filhos, pelo menos, hão-de ter uma vida melhor, hão-de ter escolha.
........Muitos sacrifícios temos nós feito para os ter na escola, para lhes pôr o comer na mesa, para os vestir. Às vezes eles ainda reclamam que andam mais mal vestidos do que os outros. Mas eu digo que o que interessa é andarem com a roupa lavada, mesmo pobrezinha. Enquanto eu tiver forças nestes braços, eles vão andar sempre frescos, mesmo que tenham pouca roupa e seja tudo pelo mais barato e vá passando de uns para os outros. Quem não é rico não pode dar-se ao luxo de desperdiçar ou de ser esquisito.
........Eu queixo-me que não tenho sossego nenhum, que não tenho um momento de alegria, que às vezes nem sequer posso comer descansada na paz de Deus, mas os meus filhos têm-me dado alegrias. É verdade! São todos inteligentes; nunca perderam um ano que fosse. Também eles sabem o que nos tem custado. Daqui a dias hão-de ir todos embora. Nem quero pensar. Estão tão crescidos! E eu, velha: o cabelo branco, a pele numa desgraça...
........Vou acordá-lo. Se ele falar mal, vou ficar calada. Não resolve nada eu se eu me aborrecer com ele. Às vezes brigo, digo o que penso das coisas, só para ele ver que eu não sou nenhuma tonta. Mas é a mesma coisa que bater numa pedra; ele faz sempre o que bem entende, mesmo que esteja errado.
........Ainda há tempos pensei: se eu pudesse, desaparecia daqui, nem que fosse por uma semana, só para ver qual seria o destino desta casa. Não sei o que seria dele. Nunca o vi riscar um fósforo para acender o lume. Nunca. Também para quê, se a moça está aqui, sempre pronta a fazer tudo? E que pagamento é que eu recebo?
........Já nada é como antigamente. Agora são só bebedeiras para aturar, quase todas as noites. Desde que ele encontre os amigos na venda. Malditos amigos! Deus me perdoe. Também é verdade que eles têm que conviver, ter alguma distracção. Ele não é dos piores, lá isso não é. Nunca me faltou comer em casa e ele nunca me malhou. Aquele de acolá de baixo põe a mulher negra com porrada..Ela até já chegou a ir pedir ajuda, de noite, a casa dos vizinhos. Aquilo, sim, é uma tristeza. Há deles que gastam tudo no vinho, não põem um tostão em casa, e depois ainda maltratam. Então isso não é pior?
........Cada um tem a sua cruz neste mundo. Mesmo assim, a minha não é das mais pesadas. Deus tem sido meu amigo.

Lília Mata
In DN-Jovem, 15/09/1992
2º prémio de texto (Tema: Manhãs)





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