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Baboseiras
........Maldito
despertador. Ele ainda ressona. Tenho de acordá-lo e
ele vai resmungar, como de costume. Não dormi nada com
dores nas costas. E agora que já estava a amadornar,
tenho de começar na lida. Engomar-lhe a roupa, engraxar-lhe
os sapatos, até pôr-lhe o pequeno-almoço
em cima da mesa e, como se já não bastasse, implorara-lhe
para o tomar.
........Será
que são todos assim ou só eu é que tive
esta sorte na vida? Minha mãe ainda sofreu mais. Meu
pai era terrível, mas ela nunca se queixava. Pelo menos
que eu me lembre. Mesmo, de que é que adiantava?
........Eu
também estou aqui pensando nisto mas tenho é de
me levantar, que há muitos afazeres à espera.
Tenho que me deixar de baboseiras. Afinal que remédio
tenho eu? Só com a terceira classe.... Os meus filhos,
pelo menos, hão-de ter uma vida melhor, hão-de
ter escolha.
........Muitos
sacrifícios temos nós feito para os ter na escola,
para lhes pôr o comer na mesa, para os vestir. Às
vezes eles ainda reclamam que andam mais mal vestidos do que
os outros. Mas eu digo que o que interessa é andarem
com a roupa lavada, mesmo pobrezinha. Enquanto eu tiver forças
nestes braços, eles vão andar sempre frescos,
mesmo que tenham pouca roupa e seja tudo pelo mais barato e
vá passando de uns para os outros. Quem não é
rico não pode dar-se ao luxo de desperdiçar ou
de ser esquisito.
........Eu
queixo-me que não tenho sossego nenhum, que não
tenho um momento de alegria, que às vezes nem sequer
posso comer descansada na paz de Deus, mas os meus filhos têm-me
dado alegrias. É verdade! São todos inteligentes;
nunca perderam um ano que fosse. Também eles sabem o
que nos tem custado. Daqui a dias hão-de ir todos embora.
Nem quero pensar. Estão tão crescidos! E eu, velha:
o cabelo branco, a pele numa desgraça...
........Vou
acordá-lo. Se ele falar mal, vou ficar calada. Não
resolve nada eu se eu me aborrecer com ele. Às vezes
brigo, digo o que penso das coisas, só para ele ver que
eu não sou nenhuma tonta. Mas é a mesma coisa
que bater numa pedra; ele faz sempre o que bem entende, mesmo
que esteja errado.
........Ainda
há tempos pensei: se eu pudesse, desaparecia daqui, nem
que fosse por uma semana, só para ver qual seria o destino
desta casa. Não sei o que seria dele. Nunca o vi riscar
um fósforo para acender o lume. Nunca. Também
para quê, se a moça está aqui, sempre pronta
a fazer tudo? E que pagamento é que eu recebo?
........Já
nada é como antigamente. Agora são só bebedeiras
para aturar, quase todas as noites. Desde que ele encontre os
amigos na venda. Malditos amigos! Deus me perdoe. Também
é verdade que eles têm que conviver, ter alguma
distracção. Ele não é dos piores,
lá isso não é. Nunca me faltou comer em
casa e ele nunca me malhou. Aquele de acolá de baixo
põe a mulher negra com porrada..Ela
até já chegou a ir pedir ajuda, de noite, a casa
dos vizinhos. Aquilo, sim, é uma tristeza. Há
deles que gastam tudo no vinho, não põem um tostão
em casa, e depois ainda maltratam. Então isso não
é pior?
........Cada
um tem a sua cruz neste mundo. Mesmo assim, a minha não
é das mais pesadas. Deus tem sido meu amigo.
Lília Mata
In DN-Jovem, 15/09/1992
2º prémio de texto (Tema: Manhãs)
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