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N.º 4 Fevereiro 2003 |
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"Cada língua constitui um modo particular de pensar e o que é pensado numa língua nunca pode ser repetido noutra" Friedrich Schleiermacher
O mês passado encontrei um amigo que não via desde o tempo que frequentávamos a escola secundária. Conversa puxa conversa, falei-lhe nestas quatro páginas mensais escritas em português, através da net. Qual não foi o meu espanto quando o ouço dizer que essa coisa da net ainda vai ser a ruína do nosso planeta. Argumentava ele que a net é o primeiro passo para uma possível eliminação das várias culturas existentes e consequentemente das respectivas línguas e dialectos; ou talvez por ordem contrária, a existência apenas duma língua única e o consequente desaparecimento das várias culturas existentes. Nunca tinha pensado no seu ponto de vista mas deu para reflectir um bocadinho. Disse-lhe que anteriormente tinham aparecido outras formas de comunicação e informação, como por exemplo o livro e a televisão, e as diversas culturas e línguas mantiveram-se. Ele reargumentou que tinham aparecido sim senhor, mas sempre dentro do conceito de nacionalidade; a net, por sua vez, tem cariz diferente, pois apareceu de mãos dadas com a globalização e, com o tempo, justificará a existência duma língua única para uma melhor comunicação entre os povos. Confessei-lhe que não tinha opinião formada sobre o assunto! Não sei se algum dia será possível o que o meu amigo-de-longa-data estava tentando convencer-me. Será possível que no futuro haja apenas uma língua? Num mundo completamente globalizado, haverá necessidade de haver mais do que uma língua? Com imensa incerteza, disse ao meu amigo que depende de que globalização estamos a falar. Se for um sistema em que a cultura dos povos seja uma prioridade a defender, manteremos as várias línguas e cada vez mais ricas; se for um sistema em que o mercado domine as relações entre os povos, então talvez vamos acabar por comunicar apenas numa língua. Até lá, vamos escrevendo alguma coisa na nossa língua materna. Carmélio Rodrigues
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