
Ana Clara, de seus 35 anos, assistiu à mãe doente, até o seu estágio final. Acompanhando-a dia a dia, observando como a doença ia minando as forças físicas e preparando aquele corpo para a morte, Ana viu a drástica mudança que sua mãe sofreu.
Luzia,
a mãe, passou a vida inteira obsecada por
cristais lapidados, baixela de prata,
toalhas de renda, porcelanas e jóias, que colecionava com extremo cuidado e à
medida que a doença foi destruíndo o seu vigor físico e falando-lhe que a morte
se aproximava, tudo aquilo deixou de ser importante. A mudança foi radical.
Agora só importava as visitas.a família e os amigos. Depois da morte da mãe, Ana
Clara resolveu se livrar de todas as antiguidades que mais de uma vez tinham
feito com que a mãe desse mais importância aos objectos do que às pessoas. Ao
montar um bazar na garagem, notou que tinha uma quantidade enorme de
antiguidades. E, num só dia, tudo foi embora. Vendido.
Ainda quando vendia a última jarrinha de porcelana, Ana precisou desabafar com a compradora: "Aprendi que, para dar valor ao presente, preciso de me livrar daquilo que me detém. Hoje, não hesito diante de nada. Nada é mais importante na vida do que as pessoas e as coisas têm o valor que lhe damos." Não sabendo como, recordou-se que há algum tempo atrás tinha lido um artigo numa revista em que o autor dizia que o valor muda com o tempo e as convenções sociais. E o artigo continuava assim: "Em tempos antigos, o sal era tão precioso que se pagavm funcionários com ele, de onde inclusive, surgiu a palavra salário. Depois, os homens foram convencionando, no transcorrer do tempo a considerar, este ou aquele metal mais precioso. De um modo geral, aquele mais raro naquele momento."
E hoje, a Ana Clara sabia que a preocupação à sua volta era outra: ter o carro do ano, tapetes importados e roupas de grife; fazer coleções de objectos, livros, selos e perfumes; amontoar, ter bastante para mostrar com orgulho, como se fossem troféus conseguidos à custa de grandes esforços. No entanto, também sabia ela, quando a enfermidade chega, quando a solidão machuca, nenhum objecto, por mais precioso que o prezemos, conseguirá espantar a doença ou diminuir a solidão. Ana sabia muito bem que são as pessoas com o seu carinho, sua ternura, seus gestos simples traduzindo amizade e afeição que nos conferem forças para aguentar a dor e espantar a solidão, são elas que nos dão calor com o seu aperto de mão, seu abraço, sua presença, seu olhar.
Com a experiência que Ana teve com sua mãe, ela aprendeu que são as pessoas que fazem a grande diferença.
Neusa Maria Morais
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