Agosto 2004
 
         Por esse mundo fora........numa constante procura.       
Edição N.° 31 de Agosto II 2004

Aqui Vai Peixe....

........O peixe anda cada vez mais na moda. Em Montreal, comemorou-se recentemente a Festa da Pesca 2004, estando agora previsto para 20, 21 e 22 de Agosto um semelhante evento em St-Jean de Port Joli, também no Quebeque, em que se assinalarão 500 anos da pesca do bacalhau.
........A falta de bacalhau e de outras espécies de peixe nos grandes bancos da Terra Nova e o moratório imposto pelo Governo federal à indústria piscícola, a fim de garantir a reposição dos respectivos "stocks", tem andado (para usar um termo da RDP-A) na crista da onda.
A Terra Nova, já de si sem grandes recursos naturais e onde a pesca é vital para a economia local, tem-se visto ainda mais carecida em consequência do encerramento da maioria das suas fábricas de transformação de peixe, com a agravante dos altos índices de desemprego que implica.
Esta é a presente situação no Canadá, mas imagino-a também um pouco por toda a parte - a níveis mais desastrosos, ao que saiba, só no Japão.
........No que se refere aos Açores (felizmente menos grave por enquanto, mas já a merecer a atenção dos cientistas), o atum só nas últimas semanas é que começa a dar sinais de ter voltado a passar nas águas açorianas.
........Decididamente, algo de anormal estará a ocorrer para que o peixe já se não sinta nos mares como "sardinha enlatada", e recuso-me a acreditar dever-se isso exclusivamente aos excessos das frotas piscatórias, como no Canadá se pretende fazer crer, embora na sua falta de zelo os armadores se tenham deixado levar pelo lema de que tudo o que vem à rede é peixe! "Política", aliás, seguida igualmente pelas focas, baleias, tubarões, golfinhos, etc., os quais estão sempre de mesa posta…
........O problema é demasiado complexo, e não tenho o conhecimento de causa. Todavia, a notícia de que a sardinha tem estado finalmente a regressar ao mar da Califórnia depois de alguns anos de ausência, leva-me a especular sobre alguns fenómenos relacionados com a própria conduta do peixe face a possíveis alterações ambientais, de temperatura e salinidade da água, por exemplo.
........Salinidade…Diz aqui o nosso povo, que não há mar salgado como o dos Açores, razão por que o seu peixe é mais saboroso. Teoria conquanto assaz discutível, o facto é que há uma enorme diferença de paladar entre o chicharro açoriano e o que vem da Grécia, dos Estados Unidos e mesmo do Continente (onde lhe chamam de carapau), todos estes últimos três de contextura mais seca.
........Mas não é só o chicharro. Em Montreal, onde quase todo o peixe chega através de Nova Iorque, espécies como a cavala, a abrótea, a pescada, entre outros, talvez pelo seu estado de menor frescura, nem apetece comê-las. Só para quem nunca soube o que é peixe fresco!
Antes de começarmos a importar peixe fresco de Portugal, levámos, aqui, anos a fio sem o consumir. Mas também ao preço que se tornou…safa! Só a velha sardinha congelada e/ou as conservas da Corretora e da Cofaco.
........Quem havia de dizer…o chicharro agora pesa-se em euros "dourados" quando escasseia. Se em exuberância de pesca, preferem deitá-lo fora a…reduzir no preço ou a entregá-lo às instituições de caridade!.
........Tornou-se importante, o "filho-da-água": tem a sua própria semana e, enobrecido como anda, já não quer ser o alimento dos pobres!
........Já o foi, no meu tempo de rapaz, irmanado com as sardinhas salgadas de Lisboa, o delicioso atum a nadar em azeite, e o carapau.
Carapau…Muito o apanhei, na Doca, junto às fragatas, durante as minhas esquivas às aulas do prof. Raposo Silva, na Escola de S. José. Só para depois, em casa, levar cada tareia! Mas à custa do "doente", lá comia toda a sua gente!
........Chicharros…Eu tinha 9 anos, quando um dia os fui comprar juntamente com um primo meu ao Barracão da Vila Nova de Baixo - paragem obrigatória para a creolina do saudoso dr. Filipe, quando o peixe não estava em condições para consumo.
........Chegados, então, ao Barracão, dissemos ao vendilhão que queríamos duas patacas de chicharros. Nem foram contados, mas atirados às mãos cheias para dentro da canasta. De regresso a casa, então sim, iam sendo contados ( mais de duas centenas!) conforme eram postos em sal nas caixas de sabão CUF, para o Inverno.
........Bem, isso foi no tempo quando o peixe tirava o chapéu ao anzol. Que abundância, Deus nosso! Contudo, nem sempre era acessível a todos.
........Lembro-me desta história de uma mãe que dera pão ao filho para o comer ao cheiro dum chicharro. Cada vez que o moço dava uma dentada no pão, passava o "zé ninguém" do então chicharro pelo nariz, e dizia: -Aqui vai peixe!

António Vallacorba
Montreal


Caro leitor, participe no projecto Lusilinha!

Índice

Nº 31


 

José E. de Sousa
António Justo
Euclides Cavaco
Euclides Cavaco
Raimundo Delgado