........O
peixe anda cada vez mais na moda. Em Montreal, comemorou-se recentemente
a Festa da Pesca 2004, estando agora previsto para 20, 21 e 22 de Agosto
um semelhante evento em St-Jean de Port Joli, também no Quebeque,
em que se assinalarão 500 anos da pesca do bacalhau.
........A
falta de bacalhau e de outras espécies de peixe nos grandes bancos
da Terra Nova e o moratório imposto pelo Governo federal à
indústria piscícola, a fim de garantir a reposição
dos respectivos "stocks", tem andado (para usar um termo da
RDP-A) na crista da onda.
A Terra
Nova, já de si sem grandes recursos naturais e onde a pesca é
vital para a economia local, tem-se visto ainda mais carecida em consequência
do encerramento da maioria das suas fábricas de transformação
de peixe, com a agravante dos altos índices de desemprego que
implica.
Esta é a presente situação no Canadá, mas
imagino-a também um pouco por toda a parte - a níveis
mais desastrosos, ao que saiba, só no Japão.
........No
que se refere aos Açores (felizmente menos grave por enquanto,
mas já a merecer a atenção dos cientistas), o atum
só nas últimas semanas é que começa a dar
sinais de ter voltado a passar nas águas açorianas.
........Decididamente,
algo de anormal estará a ocorrer para que o peixe já se
não sinta nos mares como "sardinha enlatada", e recuso-me
a acreditar dever-se isso exclusivamente aos excessos das frotas piscatórias,
como no Canadá se pretende fazer crer, embora na sua falta de
zelo os armadores se tenham deixado levar pelo lema de que tudo o que
vem à rede é peixe! "Política", aliás,
seguida igualmente pelas focas, baleias, tubarões, golfinhos,
etc., os quais estão sempre de mesa posta
........O
problema é demasiado complexo, e não tenho o conhecimento
de causa. Todavia, a notícia de que a sardinha tem estado finalmente
a regressar ao mar da Califórnia depois de alguns anos de ausência,
leva-me a especular sobre alguns fenómenos relacionados com a
própria conduta do peixe face a possíveis alterações
ambientais, de temperatura e salinidade da água, por exemplo.
........Salinidade
Diz
aqui o nosso povo, que não há mar salgado como o dos Açores,
razão por que o seu peixe é mais saboroso. Teoria conquanto
assaz discutível, o facto é que há uma enorme diferença
de paladar entre o chicharro açoriano e o que vem da Grécia,
dos Estados Unidos e mesmo do Continente (onde lhe chamam de carapau),
todos estes últimos três de contextura mais seca.
........Mas
não é só o chicharro. Em Montreal, onde quase todo
o peixe chega através de Nova Iorque, espécies como a
cavala, a abrótea, a pescada, entre outros, talvez pelo seu estado
de menor frescura, nem apetece comê-las. Só para quem nunca
soube o que é peixe fresco!
Antes de começarmos a importar peixe fresco de Portugal, levámos,
aqui, anos a fio sem o consumir. Mas também ao preço que
se tornou
safa! Só a velha sardinha congelada e/ou as conservas
da Corretora e da Cofaco.
........Quem
havia de dizer
o chicharro agora pesa-se em euros "dourados"
quando escasseia. Se em exuberância de pesca, preferem deitá-lo
fora a
reduzir no preço ou a entregá-lo às
instituições de caridade!.
........Tornou-se
importante, o "filho-da-água": tem a sua própria
semana e, enobrecido como anda, já não quer ser o alimento
dos pobres!
........Já
o foi, no meu tempo de rapaz, irmanado com as sardinhas salgadas de
Lisboa, o delicioso atum a nadar em azeite, e o carapau.
Carapau
Muito o apanhei, na Doca, junto às fragatas, durante
as minhas esquivas às aulas do prof. Raposo Silva, na Escola
de S. José. Só para depois, em casa, levar cada tareia!
Mas à custa do "doente", lá comia toda a sua
gente!
........Chicharros
Eu
tinha 9 anos, quando um dia os fui comprar juntamente com um primo meu
ao Barracão da Vila Nova de Baixo - paragem obrigatória
para a creolina do saudoso dr. Filipe, quando o peixe não estava
em condições para consumo.
........Chegados,
então, ao Barracão, dissemos ao vendilhão que queríamos
duas patacas de chicharros. Nem foram contados, mas atirados às
mãos cheias para dentro da canasta. De regresso a casa, então
sim, iam sendo contados ( mais de duas centenas!) conforme eram postos
em sal nas caixas de sabão CUF, para o Inverno.
........Bem,
isso foi no tempo quando o peixe tirava o chapéu ao anzol. Que
abundância, Deus nosso! Contudo, nem sempre era acessível
a todos.
........Lembro-me
desta história de uma mãe que dera pão ao filho
para o comer ao cheiro dum chicharro. Cada vez que o moço dava
uma dentada no pão, passava o "zé ninguém"
do então chicharro pelo nariz, e dizia: -Aqui vai peixe!
António
Vallacorba
Montreal
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