O  cantinho da Musa ...

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As minhas melhores prendas

de Guida Guedes

 

   

As minhas melhores prendas, até hoje, foram duas fotografias que dei aos meus pais o ano passado: uma, à minha mãe, dos meus avós maternos; a outra, ao meu pai, dos meus avós paternos. Talvez fosse porque todos os meus avós já terem falecido, mas nunca imaginei que elas fossem provocar tanta emoção.

   No dia de "Thanksgiving", quando eu estava a ver umas fotografias antigas, lembrei-me que seria boa ideia oferecer aos meus pais, pelo Natal, fotografias dos meus avós, quando estes eram novos.

   Seleccionei duas e levei-as a um fotógrafo para ampliar e fazer cópias.

   O meu avô materno, meio sério numa das fotografias, com olhos claros e de vivaço, cabelo ondulado penteado para trás e bigode muito fininho bem aparado, parecia um actor de cinema ao lado esquerdo da minha avó, muito perfeita, de cara redonda, lábios grossos e cabelos lisos quase a cairem-lhe nos ombros; na outra, era o meu avô paterno, um bocadinho cheio, também com bigode mas basto, com uma cara muito branca e mais sorridente do que minha avó que estava no seu lado direito, com olhos dum escuro adocicado e uma blusa de seda branca que lhe deixava descoberto o pescoço moreno e sensual.

   Dias antes do Natal, comprei duas molduras de madeira para as fotos, coloquei-as dentro dumas caixas de cartolina, embrulhei-as com um papel lustroso próprio do Natal e deixei-as debaixo da árvore, à espera da grandiosa noite. Todos oa anos, os meus tios Miguel e Emanuel vêm com as suas mulheres e filhos passar a noite de Natal connosco. Depois da consoada, enquanto jogamos cartas ou dados e depenicamos uma coisinha mais docinha ou saboreamos um licorzinho diferente, vamos comentando as prendas que cada um vai abrindo.

   Quando meu pai se levantou, para ensaiar uma cantiga de Natal com o meu primo Luís, aproveitei para lhe entregar a minha prenda. Abriu a caixa sem me agradecer. Ao ver as fotos dos seus pais, abanou a cabeça, horizontalmente, parecendo dizer que tudo seria diferente se eles ainda estivessem vivos. Depois de me apertar fortemente contra ele, disse-me: "Tens razão! Foi por causa duns dólares miseráveis e esta vida de trabalhar trabalhar que nunca fomos visitá-los a Portugal. Não imaginas como eles teriam gostado tanto de te ver." Abraçou-me novamente e, esquecendo-se completamente de ensaiar a cantiga do Papai Noël, ficou apalpando a oferta que lhe dei.

   Pelo canto dum olho, apercebi-me que minha mãe tinha presenciado a cena toda. Ao cruzar os olhos comigo, não consegui disfarçar: "Oh! minha rica filha, como adorava receber também uma fotografia dos meus queridos pais. O que será que me vais oferecer !?" Fui debaixo da árvore buscar a minha oferta para ela. Pelo formato palpitou que seria algo semelhante. E era mesmo! Agradeceu-me e beijou-me. Enquanto olhava pausadamente para a fotografia, sabe lá Deus o que estava ela pensando. Depois, passou-a primeiro aos meus tios e depois ao resto da família. Senti um nó na garganta quando a Xanel, de cinco anos, filha mais novinha do meu tio Emanuel, até reconheceu os avós quando eram novos e disse com tanta alegria: "Oh! os meus vavós tão bonitos". Seguidamente, e ainda acreditando que os mais velhos possuem todas as respostas, olhou para a mãe e perguntou-lhe: "Mamã, se os vavós estão no céu com Jesus, eles têm Natal todos os dias?" Nenhum de nós encheu-se de coragem para lhe dizer que, ao contrário do que se passa connosco cá na terra, os seus queridos vavós têm Natal todos os dias.

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