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EXILADO
EM DOIS MUNDOS
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"Quem
nunca se sentiu a mais na sua terra
própria, a ponto de ser obrigado a deixar e
procurar na ausência o calor que ela lhe nega,
mal pode compreender o que significa esse
golpe na consciência, essa vergastada no amor-
próprio, esse sentimento dorido de todo o filho
segregado do lar materno".
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........Emigrar
não significa dispor de duas pátrias, significa, outrossim,
espartilhar as raízes na negação de viver infiel
ao mundo autêntico, num dorido e silente gemicar pelo terrunho genésico,
forçado que fui a trair-me pela côdea estranha que alimenta
o corpo segregado da alma da terra, cuja ausência me cravejou num
mundo de afectos perdidos.
........Não é impunemente que
se se desfeiteia a dolorosa sina de ter nascido português . Na minha
alma vive um povo e milhentas memórias no ressoar de uma língua
tão primacial quão o acto de respirar, num linguajar adocicado
sem arestas e fonemas estranhos, em que a alma ressoava na perenidade
do ser.
Escutem: foram gerações que moldaram o sangue do sentir
repartido em saudade pelas ruelas de Ílhavo.
........Foi um país que cinzelou a
sua própria história na minha vida. Contra este facto que
posso eu? Além de me defrontar com esta nostalgia das pessoas e
lugares do espírito que se grudaram no mais íntimo do sangue
da memória e aí residirão para o resto deste meu
tempo expatriado.
........Não existe um único
dia em que não faça uma digressão pelas vielas, saboreie
a fragrância pacificada das tílias do jardim, o sabor do
vento sinfonizado sobre os pinheiros da Gafanha, um barquito estouvado
a cabritar na crista das águas do porto da Malhada, um rosto de
velho com barba desgrenhada de sete dias, cigarro a fumegar dos lábios
pendente, redes entre mãos, e a tal ponte fendida pelo séculos
entre juncos esgrouviados que diziam romana, a reterem límpidas
as memórias da infância entre juncos e fios de água
na memória esculpidos.
........Digo e redigo: não existe
um único dia que estas lembranças me não assomem
aos olhos da alma numa vaga de saudade dolente ao constatar o tempo dolorosamente
perecível , nesta ausência em que de mim me apartei.
........Não sou desta terra, onde
desemboquei mercenário de argênteas quimeras. ........Nada
aqui testemunhou a minha infância. Nem vielas, nem o adro da igreja,
nem o cheiro a jarro em dia de romaria, nem as velhas embiocadas em eternos
xailes negros, a murmurarem pelas esquinas as ladainhas da vida alheia.
Nem os gritos ladinos das crianças, nem o alvoroço da miudagem,
atiçada por uma bola de farrapos a clamar aos gritos: "passa
a bola!..", nem o rosto daquela mulher vestida de preto, afadigada
no abanador , o fogareiro e o fumo levitante do cheiro das sardinhas esbraseadas,
nem o repicar dos sinos anunciado um baptizado , ou o ressoar tétrico
das badaladas que anunciam o regresso do corpo ao seio da terra materna.
Vivo de mim apartado. Nesta marginalidade dei-me conta que o húmus
e a língua da minha pátria moldaram a essência do
ser para todo o sempre.
........Não, não sou daqui,
apesar destas espigas foragidas com que vou alimentado o sonho inútil
num regresso ilusório que porventura jamais enxergará a
luz do chão que me fecundou o espírito.
........Explico-me em vagalhões de
saudade, nesta desolação que me assola a alma emigrada como
procela em tempestades alheias. Sou náufrago do pão em pátrias
duplamente madrastas, sem outra bússola que não seja a miragem
do regresso com que vou urdindo o sonho, no qual , verdadeiramente me
ludibrio.
Emigrar. Estar e não estar, ser e não ser nesta disjunção
do corpo e alma-- entre dois mundos-- , neste limbo sem remédio,
sem fonte a apaziguar esta sede do bojo materno, onde se quedam vivos
os acrisolados sonhos de infância.
........Vim em busca de pão--que outros
sonhos se concedem ao emigrante? Saciada a fome, doloriza-se-me a alma
na exclusão da terra que arquivou para sempre, a luz primeira dos
olhos e moldou o sangue do sentir.
........Traí-me, longe de saber quanto
vale em espírito o canteiro genésico. Agora, terei que viver
de mim ausente, sem aqueles sabores mátrios que são a essência
do meu jeito de ser, por isso, caminho solitário, trôpego
da alma , sem o que de mim permanece em Portugal.
........Emigrar. Desventurado fado gemido
nas cordas plangentes desta minha guitarra-- destino de português-por
cumprir.
Barbosa Tavares
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Nº
21 Março 2004

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