Março 2004

EXILADO EM DOIS MUNDOS

"Quem nunca se sentiu a mais na sua terra
própria, a ponto de ser obrigado a deixar e
procurar na ausência o calor que ela lhe nega,
mal pode compreender o que significa esse
golpe na consciência, essa vergastada no amor-
próprio, esse sentimento dorido de todo o filho
segregado do lar materno".

Miguel Torga

 

........Emigrar não significa dispor de duas pátrias, significa, outrossim, espartilhar as raízes na negação de viver infiel ao mundo autêntico, num dorido e silente gemicar pelo terrunho genésico, forçado que fui a trair-me pela côdea estranha que alimenta o corpo segregado da alma da terra, cuja ausência me cravejou num mundo de afectos perdidos.
........Não é impunemente que se se desfeiteia a dolorosa sina de ter nascido português . Na minha alma vive um povo e milhentas memórias no ressoar de uma língua tão primacial quão o acto de respirar, num linguajar adocicado sem arestas e fonemas estranhos, em que a alma ressoava na perenidade do ser.
Escutem: foram gerações que moldaram o sangue do sentir repartido em saudade pelas ruelas de Ílhavo.
........Foi um país que cinzelou a sua própria história na minha vida. Contra este facto que posso eu? Além de me defrontar com esta nostalgia das pessoas e lugares do espírito que se grudaram no mais íntimo do sangue da memória e aí residirão para o resto deste meu tempo expatriado.
........Não existe um único dia em que não faça uma digressão pelas vielas, saboreie a fragrância pacificada das tílias do jardim, o sabor do vento sinfonizado sobre os pinheiros da Gafanha, um barquito estouvado a cabritar na crista das águas do porto da Malhada, um rosto de velho com barba desgrenhada de sete dias, cigarro a fumegar dos lábios pendente, redes entre mãos, e a tal ponte fendida pelo séculos entre juncos esgrouviados que diziam romana, a reterem límpidas as memórias da infância entre juncos e fios de água na memória esculpidos.
........Digo e redigo: não existe um único dia que estas lembranças me não assomem aos olhos da alma numa vaga de saudade dolente ao constatar o tempo dolorosamente perecível , nesta ausência em que de mim me apartei.
........Não sou desta terra, onde desemboquei mercenário de argênteas quimeras. ........Nada aqui testemunhou a minha infância. Nem vielas, nem o adro da igreja, nem o cheiro a jarro em dia de romaria, nem as velhas embiocadas em eternos xailes negros, a murmurarem pelas esquinas as ladainhas da vida alheia. Nem os gritos ladinos das crianças, nem o alvoroço da miudagem, atiçada por uma bola de farrapos a clamar aos gritos: "passa a bola!..", nem o rosto daquela mulher vestida de preto, afadigada no abanador , o fogareiro e o fumo levitante do cheiro das sardinhas esbraseadas, nem o repicar dos sinos anunciado um baptizado , ou o ressoar tétrico das badaladas que anunciam o regresso do corpo ao seio da terra materna.
Vivo de mim apartado. Nesta marginalidade dei-me conta que o húmus e a língua da minha pátria moldaram a essência do ser para todo o sempre.
........Não, não sou daqui, apesar destas espigas foragidas com que vou alimentado o sonho inútil num regresso ilusório que porventura jamais enxergará a luz do chão que me fecundou o espírito.
........Explico-me em vagalhões de saudade, nesta desolação que me assola a alma emigrada como procela em tempestades alheias. Sou náufrago do pão em pátrias duplamente madrastas, sem outra bússola que não seja a miragem do regresso com que vou urdindo o sonho, no qual , verdadeiramente me ludibrio.
Emigrar. Estar e não estar, ser e não ser nesta disjunção do corpo e alma-- entre dois mundos-- , neste limbo sem remédio, sem fonte a apaziguar esta sede do bojo materno, onde se quedam vivos os acrisolados sonhos de infância.
........Vim em busca de pão--que outros sonhos se concedem ao emigrante? Saciada a fome, doloriza-se-me a alma na exclusão da terra que arquivou para sempre, a luz primeira dos olhos e moldou o sangue do sentir.
........Traí-me, longe de saber quanto vale em espírito o canteiro genésico. Agora, terei que viver de mim ausente, sem aqueles sabores mátrios que são a essência do meu jeito de ser, por isso, caminho solitário, trôpego da alma , sem o que de mim permanece em Portugal.
........Emigrar. Desventurado fado gemido nas cordas plangentes desta minha guitarra-- destino de português-por cumprir.

Barbosa Tavares

 

 

 

 

Nº 21 Março 2004

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António Vallacorba
 
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