
Para a Caroucha
........No meu tempo e no de muitos
de vós, o namoro era muito diferente daquele que ocorre
presentemente, sem contar, aos laivos, do que também
acontece nas estradas da informação - a chamada
Internet, ensejo de mais casos deceptivos do que de sucesso.
........Não havia, pois
apenas um só dia para os namorados.
........Namorar, então,
fazia-se quando o momento propiciava e os pais deixavam, tudo
muito a fugido e às escondidas.
........Dizia-se de "contrariados"
os namoros que não agradavam a ninguém mas apenas
às duas pessoas envolvidas, enquanto que outros namoros
eram imediatamente aceites com "bons olhos" e até
mesmo "obrigados", não se fosse em perda de
uma boa herança e/ou de interesses pessoais.
........Ao tempo, por vezes o diálogo
não era assim tão fácil em centros pequenos,
nem em estilo a ida ao café, muito menos, como hoje,
coisa frequente, o acesso a recintos de encontro, por noite
fora, barulho de música, ambiente lacerado de álcool
e, quiçá, de droga.
........Na escola e pelas ruas,
isso sim, tinha-se uma abordagem mais facilitada, trocavam-se
uns olhares. Mas quem podia, ia-se por namoros de janela, a
moça praticamente "amarrada" lá no cimo, cabelos
embalados pela ventania, quedando-se o rapaz pelos baixios,
sofrendo as agruras do frio, da chuva durante
dois ou três
dedos de fala.
........Oh, os momentos de aflição
a interromper a conversa, cada vez que alguém entrava
ou saía de casa! Logo se fugia em retirada ardilosa em
mostra de respeito, para depois reatar-se o fio da meada em
constatação de rua deserta, só para depois
ser quebrado o silêncio por mor de algum chamamento vindo
da casa ou do ladrar de cão no caminho.
........Outrossim, vizinhança
escandalizada pelo atrevimento da moça estar ali pendurada
até tarde, pior ainda o rapaz cá em baixo regelado,
molhado, contudo ardendo em paixão!
........Claro, as coisas avançaram,
tudo mudou, para bem ou para mal, em nome da modernidade. Emancipação
da mulher um facto, quiçá fazendo afastar muitos
candidatos; outro facto, a cumplicidade do homem, com muitas
conveniências pelo meio, solidão ou questão
de genes levando muitos a namorar os do seu próprio sexo.
........Mas vivam os namorados!
Como é bonito ver por aí parzinhos de mãos
dadas indo ao encontro da vida, talvez levando uma flor, a esperança
na alma, o amor no coração
........"Queres ser o meu
Valentim"?, é uma expressão muito característica
dos anglófonos nesta data, mas que não se aplica
só ao namoro. De facto, para muitos povos, em especial
os germânicos, este dia é, também, um convite
ao nobre sentimento da amizade, que, para os portugueses em
geral e os açorianos em particular, tem singular expressão
nesta quadra do Entrudo, durante as quintas-feiras de amigos,
amigas, compadres e comadres - tempo de assaltos, bailes, degustação
de melaçadas, coscorões, rosas do Egipto, fatias
douradas e alguma "mijinha" que restou do Natal..
........Muitos têm sido os
filósofos e poetas que se têm debruçado
sobre o significado da verdadeira amizade.
........Vinicius de Moraes, por
exemplo, diz, a certa altura num seu trabalho intitulado Amigos:
"Se alguma coisa me consome e me envelhece é que
a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu
lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo
comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só
desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus
amigos"!
........Um muito feliz Dia de S.
Valentim.
António Vallacorba
Montreal