Fevereiro II 2004

 

 


Para a Caroucha


........No meu tempo e no de muitos de vós, o namoro era muito diferente daquele que ocorre presentemente, sem contar, aos laivos, do que também acontece nas estradas da informação - a chamada Internet, ensejo de mais casos deceptivos do que de sucesso.
........Não havia, pois apenas um só dia para os namorados.
........Namorar, então, fazia-se quando o momento propiciava e os pais deixavam, tudo muito a fugido e às escondidas.
........Dizia-se de "contrariados" os namoros que não agradavam a ninguém mas apenas às duas pessoas envolvidas, enquanto que outros namoros eram imediatamente aceites com "bons olhos" e até mesmo "obrigados", não se fosse em perda de uma boa herança e/ou de interesses pessoais.
........Ao tempo, por vezes o diálogo não era assim tão fácil em centros pequenos, nem em estilo a ida ao café, muito menos, como hoje, coisa frequente, o acesso a recintos de encontro, por noite fora, barulho de música, ambiente lacerado de álcool e, quiçá, de droga.
........Na escola e pelas ruas, isso sim, tinha-se uma abordagem mais facilitada, trocavam-se uns olhares. Mas quem podia, ia-se por namoros de janela, a moça praticamente "amarrada" lá no cimo, cabelos embalados pela ventania, quedando-se o rapaz pelos baixios, sofrendo as agruras do frio, da chuva durante…dois ou três dedos de fala.
........Oh, os momentos de aflição a interromper a conversa, cada vez que alguém entrava ou saía de casa! Logo se fugia em retirada ardilosa em mostra de respeito, para depois reatar-se o fio da meada em constatação de rua deserta, só para depois ser quebrado o silêncio por mor de algum chamamento vindo da casa ou do ladrar de cão no caminho.
........Outrossim, vizinhança escandalizada pelo atrevimento da moça estar ali pendurada até tarde, pior ainda o rapaz cá em baixo regelado, molhado, contudo ardendo em paixão!
........Claro, as coisas avançaram, tudo mudou, para bem ou para mal, em nome da modernidade. Emancipação da mulher um facto, quiçá fazendo afastar muitos candidatos; outro facto, a cumplicidade do homem, com muitas conveniências pelo meio, solidão ou questão de genes levando muitos a namorar os do seu próprio sexo.
........Mas vivam os namorados! Como é bonito ver por aí parzinhos de mãos dadas indo ao encontro da vida, talvez levando uma flor, a esperança na alma, o amor no coração
........"Queres ser o meu Valentim"?, é uma expressão muito característica dos anglófonos nesta data, mas que não se aplica só ao namoro. De facto, para muitos povos, em especial os germânicos, este dia é, também, um convite ao nobre sentimento da amizade, que, para os portugueses em geral e os açorianos em particular, tem singular expressão nesta quadra do Entrudo, durante as quintas-feiras de amigos, amigas, compadres e comadres - tempo de assaltos, bailes, degustação de melaçadas, coscorões, rosas do Egipto, fatias douradas e alguma "mijinha" que restou do Natal..
........Muitos têm sido os filósofos e poetas que se têm debruçado sobre o significado da verdadeira amizade.
........Vinicius de Moraes, por exemplo, diz, a certa altura num seu trabalho intitulado Amigos: "Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos"!
........Um muito feliz Dia de S. Valentim.

António Vallacorba
Montreal


 



 

 

 

 

 

 

Nº 19 Fevereiro 2004

 

Ana Irpic
Lúcia Cabral
Manuel Sanches
Natércia Rodrigues
Jacinto Ribeiro
Amiga do Mergulho
Natércia Rodrigues
Nazilda Corrêa
 
 

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