Adeus


.....Voltei! Sim, voltei a este quarto quinado do último andar do prédio. A esta água-furtada que me inspirou um dia.
.....Voltei porque de uma certa forma sinto-me vazia; ou talvez cheia desse vazio que necessito deitar para fora. A lacuna que dentro de mim existe precisa ser limpa e preenchida com algo melhor. Escrever estas palavras é fácil, cumpri-las não. Escrevo-as para mim, publico-as para os leitores.
.....Da janela desta água-furtada, vejo além uma ilha obscurecida pelo nevoeiro, e ouço o repicar dos sinos numa pequena freguesia. Esse som entra dentro de mim como se fosse um adeus. Um adeus de saudade por alguém que parte para não mais voltar.
.....Quem será esse alguém? E como é possível, a tantas milhas de distância, ver a ilha e ouvir o repicar dos sinos?
.....Envolvo-me nesse som e deixo-me ir. Entro nessa viagem espiritual e chego lá. Procuro esse alguém mas já não o encontro. Penso: será por ele que os sinos tocam? Talvez. Fazem-no por um dever e não pela falta de um cidadão.
.....Viajo pelo passado e percorro os caminhos e os terrenos por onde ele passou. Sento-me numa pedra e relembro esse homem que tal como outros passou pela vida sem deixar história. Esse ser humano que, como todos, sofreu e fez sofrer.
.....Nesta viagem espiritual, percorro o seu mundo preferido, e vejo-o com aquele olhar vazio olhando a sua obra. Talvez nessa altura já pensasse que um dia se ia e tudo ficava. Vejo-o com olhar de sonhador olhando os terrenos ainda bravios e ouço-o dizer. "Já estou vendo tudo isto feito", algo que, na minha inocência, não entendia mas que, mais tarde, vim a compreender; quando, tal como ele, também enxergava as coisas já feitas antes de as fazer. Os sonhadores são assim: são como os arquitectos, primeiro o sonho, depois a obra. Enquanto uns fazem o desenho no papel, os outros fazem-no na memória.
.....Vejo-o no vale da Vinha da Cova, e nos do Biscoito Grande com a sulfatadeira às costas sulfatando as videiras, na Ladeira Grande escorando a vinha, na adega à volta dos cascos com o vinho ainda a fermentar e olhando o líquido fino que sai do lagar para dentro do selhão. Mais tarde, no pátio da sua casa, com aquele olhar vazio, observando a adega já em ruínas. Vejo-o na cozinha da casa, sentado numa caixa antiga, olhando o avolumar dos pés e escutando o começo da doença que o havia de levar.
.....Como quem desperta de um sonho, ouço de novo o repicar dos sinos. Com as lágrimas correndo sigo esse som harmonioso mas triste e chego ao cemitério da freguesia. Olho em redor e vejo a terra de uma campa ainda fresca onde este cidadão acabou de ser sepultado e fico olhando a sua (nossa) última morada.
.....Ali nasceu, ali foi criado, ali se fez homem. Homem honesto, homem de palavra, trabalhador, com defeitos como todo o ser humano, enfim, e ali foi sepultado. Olho de novo a campa e deparo com uma jarra com flores e fico-me perguntando: porquê agora, se em vida nunca as recebeu? Porquê as pessoas (algumas) continuam com as tradições antigas dos falsos profetas, fazendo após a morte o que deviam fazer em vida?
.....Tristonha, sem pressa, volto ao quarto quinado e fico mirando a ilha à distância. Tão longe, mas ao mesmo tempo tão perto que o odor fresco e húmido da terra entrava nas minhas narinas.
.....Pois é meu pai, tu foste mas tudo ficou: a ilha, as terras, a adega em ruínas, a casa, e a tua rapariguinha por mais algum tempo. Por quanto não sei, mas uma coisa te garanto: mesmo à distância e sem a tua ajuda, enquanto por cá andar, e a memória não me faltar, nunca serás um homem sem história.
.....Adeus, Pai.

Candeias Leal

27 de Julho de 2002


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Nº 17 Janeiro 2004

 

 

Laura Limeira
 
carmélio
 
Ana Irpic

 

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