O cantinho da Musa...

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VIAGENS DA VIDA

                                                               de Jorge Gonçalves

 

 

Depressa partimos,

rapidamente chegamos.

 

A vida é, também ela, uma viagem.

Entretanto, são muitos os que viajam na vida,

e muito poucos são os que vivem a viajem.

 

Confusão, canseiras, dores, desilusões.

 

A vida é tantas vezes, uma viagem, viagem estranha.

Quantos partem sem força para chegar 

e quantos chegam sem lembrança da partida !

 

Quantos partem sem esperança

e quantos chegam sem alegria !

 

Mas no meio deste labirinto

ALGUÉM espera por ti;

ALGUÉM que te conhece, que te consola, 

que te acompanha e que TE AMA.

 

 

 

 

 

 

ALGUÉM que te estende a mão

quando vais a cair, 

que te incentiva quando desanimas,

que te abraça quando todos te abandonam

e que, quando te ignoram, 

entra dentro de ti e diz:

"Vem".

 

Depressa partimos,

rapidamente chegamos.

 

A vida é, também ela, uma viagem.

Nas viagens, é nas partidas 

que começamos a chegar.

 

E é nas chegadas que encontramos forças para, novamente, partir.

Também na vida, é ao receber que começamos a dar 

e é no dar que acabamos definitivamente por RECEBER.

 

 

Margarida Guedes, vinte anos, nasceu em São Miguel (Açores) e emigrou com os pais quando tinha quatro anos de idade.

Magra, morena, olhos escuros penetrantes, nada de pinturas, excepto um traço escuro nas pálpebras. Cabelos escuros pelos ombros, lábios apenas um bocadinho carnudos e boca grande.

Guida gosta de ir a concertos de música rock, cursa letras no terceiro ano da Universidade, namora, sabe jogar xadrez, nunca foi a Portugal. Já experimentou fumar marijuana mas não gostou, não bebe e adora conversar.

Também gosta muito de escrever crónicas e prometeu-nos de continuar a sua colaboração no nosso jornal.

Ah!... esqueci de dizer-vos que não divulgamos a sua morada nem o seu número de telefone...

Lá de vez em quando

Guida Guedes

Lá de vez em quando, depois do jantar, sinto vontade de fumar o meu cigarrinho. Não porque papá me tenha dito alguma coisa, mas não consigo matar o vício diante dele. Então resolvo apanhar um bocado de ar fresco, agarro uma camisola e parto de casa.

Acendo um bocado de veneno e as primeiras tragadas já estão no ar. Depois de passar pela florista que naquela semana tinha sacas de terra em saldo, vejo os livros vazios na montra da livraria que meu pai sempre chama papelaria, o que nunca percebi a razão, e quando chego ao fim da main street, volto sempre à direita, não sei como o meu tabaco reconhece as bombas de gasolina nos outros cantos da rua.

Aqui não há por onde escolher, uma rua que, ao fundo, fica a estação dos comboios que partem e regressam a Boston. Uma vez um primo meu, que esteve cá de visita, chamou outro nome à estação, mas agora não me lembro. Imaginem vocês a primeira coisa que faço quando chego à estação: puxo mais um da cigarreira e é outro que não regressa, este com boquilha, claro.

Sentada no banco que fica contra a casinhola onde se compram os bilhetes, ponho-me a ver quem entra e sai dos comboios; satisfeitos, por chegarem ou regressarem a casa. Também regresso!!! Tentando explicar como o sabor do cigarro é diferente quando vemos as pessoas chegarem ou partirem da estação, meu pai olha-me, espera que minha mãe se afaste ………….e diz-me

"Guidinha, partir é um golpe que não se vê, mas é tão doloroso que não sei se a cova o pode sarar; olha lá, com cigarro ou sem cigarro…………………………… partir não é só partir."

Levanta-se! E afasta-se com aquele brilho húmido que lhe surge nos olhos lá de vez em quando.

 

 

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