Nº 13 Novembro 2003

 

Sumário

 

José Moniz

 

Ana Irpic

 

Lusilinha@aol.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1

 

O Vinhateiro

Pairava no ar o aroma agradável do vinho novo. No silêncio da noite ouvia-se, aqui e além, as vozes dos agricultores que, nas adegas da pequena aldeia, ainda trabalhavam à volta dos cascos com vinho já tirado, tapados apenas com uma folha de vinha porque o vinho ainda fervia. Ora mexendo as tinas com o mosto já a fermentar ou, então, esmagando o resto das uvas apanhadas nesse dia a labuta continuava.
A vida do vinhateiro é árdua e os lucros poucos. Penso que trabalham a terra mais por amor do que pela ganância do dinheiro, visto que no fim da colheita nada resta para guardar no baú. O dinheiro apurado é reservado para as despesas da casa e das vinhas do ano seguinte.
Numa pequena adega ao lado da casa, António e Ana, um casal agricultor, terminavam os últimos afazeres. Com o moinho manual ele moía o resto das uvas apanhadas nesse dia. Ela, para que não resvalasse de cima do selhão, segurava o engenho. A um canto, em cima do atapetado chão com rama fresca de pinheiro, enrolado numa manta de retalhos, uma criança de tenra idade dormia. De quando em vez Ana agachava-se para juntar algum bago de uva que caía no alcatifado.
A noite já ia alta quando Ana pegou no filho e, junto com o marido, foi para casa descansar algumas horas. Antes do sol nascer já deviam estar a pé para preparar o que levariam para a terra. No pátio da adega, António olhou o firmamento um pouco fusco e, ao ver o tamanho da auréola da lua, disse para a mulher: - amanhã vamos ter chuva e as uvas têm que ser apanhadas senão perdem-se. Ana não respondeu, já sabia o que ele queria dizer; mesmo com chuva tinham que ir para a terra. A sua preocupação não era por ela e pelo marido mas sim pelo filho que, ainda tão novinho, chovesse ou não, tinha que andar com eles nas vinhas.
Como previu António, amanheceu a chover; uma chuva branda, daquelas que vêm para ficar por algum tempo. Enquanto ele preparava os cestos e alguns plásticos para cobrir as uvas, Ana preparava a comida e o filho, que choramingava por ser acordado. Doía-lhe o coração ao sentir que ele sofria mas a vida era assim, tinham que ir.
Já na terra, dentro de uma pequena casa feita de pedra, Ana fazia dum cesto o berço para o filho. António, aborrecido com o tempo, abruptamente chamou-a. Ela tinha que deixar a criança mesmo a chorar e ir para junto do marido apanhar as uvas. Com as lágrimas nos olhos, após dar a chucha à criança, pegou o cesto de asa e entrou no vale cerrado de vinha encharcada de água.
As uvas, já bem maduras, com o peso da chuva debulhavam-se no chão. A voz de António ouvia-se; chamava Ana à atenção para que juntasse todos os bagos que caíam sobre a terra molhada; não se podia perder um único bago.
À medida que se enchiam os cestos redondos António cobria-os com os plásticos para que as uvas não ficassem muito alagadas e acarretava-os à cabeça para a pequena adega. As uvas molhadas faziam o vinho com pouco grau, coisa que António não queria; o seu vinho era o melhor da região, suas vinhas as mais bem cuidadas, algo de que ele tanto se orgulhava.
Ao fim do dia, de volta a casa, a lida na adega repete-se; a roupa molhada enxuga-se no corpo. Tratar das uvas é muito mais importante para António do que cuidar dele próprio e da família. Este é o mal de muita gente: pensam que o Mundo lhes foge mas, infelizmente, somos nós que vamos e ele fica.
Como manda a lei da vida, hoje, certamente António e Ana estão velhos; talvez o filho tenha seguido outros caminhos. E eles, que fazem sozinhos? Nada?! A idade já pouco lhes permite. E, assim, ficam passando os últimos dias que lhes restam de vida olhando o seu pequeno Mundo: a adega já destruída e os campos, ontem cuidados, hoje bravios.


Candeias Leal

Candeias@candeiasleal.com