Pairava no
ar o aroma agradável do vinho novo. No silêncio da noite
ouvia-se, aqui e além, as vozes dos agricultores que, nas adegas
da pequena aldeia, ainda trabalhavam à volta dos cascos com vinho
já tirado, tapados apenas com uma folha de vinha porque o vinho
ainda fervia. Ora mexendo as tinas com o mosto já a fermentar
ou, então, esmagando o resto das uvas apanhadas nesse dia a labuta
continuava.
A vida do vinhateiro é árdua e os lucros poucos. Penso
que trabalham a terra mais por amor do que pela ganância do dinheiro,
visto que no fim da colheita nada resta para guardar no baú.
O dinheiro apurado é reservado para as despesas da casa e das
vinhas do ano seguinte.
Numa pequena adega ao lado da casa, António e Ana, um casal agricultor,
terminavam os últimos afazeres. Com o moinho manual ele moía
o resto das uvas apanhadas nesse dia. Ela, para que não resvalasse
de cima do selhão, segurava o engenho. A um canto, em cima do
atapetado chão com rama fresca de pinheiro, enrolado numa manta
de retalhos, uma criança de tenra idade dormia. De quando em
vez Ana agachava-se para juntar algum bago de uva que caía no
alcatifado.
A noite já ia alta quando Ana pegou no filho e, junto com o marido,
foi para casa descansar algumas horas. Antes do sol nascer já
deviam estar a pé para preparar o que levariam para a terra.
No pátio da adega, António olhou o firmamento um pouco
fusco e, ao ver o tamanho da auréola da lua, disse para a mulher:
- amanhã vamos ter chuva e as uvas têm que ser apanhadas
senão perdem-se. Ana não respondeu, já sabia o
que ele queria dizer; mesmo com chuva tinham que ir para a terra. A
sua preocupação não era por ela e pelo marido mas
sim pelo filho que, ainda tão novinho, chovesse ou não,
tinha que andar com eles nas vinhas.
Como previu António, amanheceu a chover; uma chuva branda, daquelas
que vêm para ficar por algum tempo. Enquanto ele preparava os
cestos e alguns plásticos para cobrir as uvas, Ana preparava
a comida e o filho, que choramingava por ser acordado. Doía-lhe
o coração ao sentir que ele sofria mas a vida era assim,
tinham que ir.
Já na terra, dentro de uma pequena casa feita de pedra, Ana fazia
dum cesto o berço para o filho. António, aborrecido com
o tempo, abruptamente chamou-a. Ela tinha que deixar a criança
mesmo a chorar e ir para junto do marido apanhar as uvas. Com as lágrimas
nos olhos, após dar a chucha à criança, pegou o
cesto de asa e entrou no vale cerrado de vinha encharcada de água.
As uvas, já bem maduras, com o peso da chuva debulhavam-se no
chão. A voz de António ouvia-se; chamava Ana à
atenção para que juntasse todos os bagos que caíam
sobre a terra molhada; não se podia perder um único bago.
À medida que se enchiam os cestos redondos António cobria-os
com os plásticos para que as uvas não ficassem muito alagadas
e acarretava-os à cabeça para a pequena adega. As uvas
molhadas faziam o vinho com pouco grau, coisa que António não
queria; o seu vinho era o melhor da região, suas vinhas as mais
bem cuidadas, algo de que ele tanto se orgulhava.
Ao fim do dia, de volta a casa, a lida na adega repete-se; a roupa molhada
enxuga-se no corpo. Tratar das uvas é muito mais importante para
António do que cuidar dele próprio e da família.
Este é o mal de muita gente: pensam que o Mundo lhes foge mas,
infelizmente, somos nós que vamos e ele fica.
Como manda a lei da vida, hoje, certamente António e Ana estão
velhos; talvez o filho tenha seguido outros caminhos. E eles, que fazem
sozinhos? Nada?! A idade já pouco lhes permite. E, assim, ficam
passando os últimos dias que lhes restam de vida olhando o seu
pequeno Mundo: a adega já destruída e os campos, ontem
cuidados, hoje bravios.