À Beira-Main

SAGA

LIVRO PRIMEIRO


Se visitarem Montreal, passem pelo "quartier St-Louis". Lá encontrarão correntezas inteiras de prédios garridos, com tomateiros e alfaces a crescer nos jardinzitos roubados ao asfalto.
Podem bater sem receio. É gente portuguesa.


O CANTO DA SEREIA


Na tarde mansa, moído de trabalho, o Luís Negro sobe a St.- Laurent. Lá no alto, na zona dos portugueses, a rua explode em festa: bandeiras, música, bancas de rouparia, petiscos, quinquilharias, carripanas de pop-corn, profusão de feira "das mil e uma noites".
Foi quando o altifalante lhe berrou na cara a cantiga. Cantina esganiçada que falava dum amor qualquer, ao luar .. na praia ... lá em baixo ... em Portugal.
Engoliu em seco, as pernas cheias de tremuras. E aquilo que não lhe acontecia há anos, desde a morte da mãe, aconteceu: duas gordas lágrimas saltaram-lhe aos olhos. Envergonhado, raivoso, enxugou-as às costas da mão encordoada.
"Porra, Luís, és algum garoto?"
A cantiga, endiabrada, sibilante, continuava a verrumar-lhe o cérebro.
"Raio de cantiga."
Pensamentos, durante anos adormecidos, acordavam indomáveis: a sua Vieira, o mar e a praia, os copos de tinto emborcados na tasca do Palaurdo, os barcos e as pescarias e, sobretudo, os camaradas de campanha, o Tonho, o Rijo, o Coxo, tantos, tantos...
"E a fome que passavas, Luís, e a fome?" - rebatia, a afastar os engodos. -"Aqui podes juntar umas dólas e lá? Lá roías a ponta dum corno. E olha que não trabalhavas menos. Na pesca, na lavoura, puxavas pelo canastro como um mouro".
E os pensamentos com os freios nos dentes: nos entardeceres ensanguentados de verão, qual deus de bronze a puxar as redes, os músculos quase a rebentar, trespassado pelo olhar admirativo da turistada toda, os pulmões esbraseavam-se: ôoh ... ôoh ... ôoh ... e as sardinhas a saltar como prata! E o mar manso como um rafeiro! E ...e ... e…!
Mal chegou a casa, disparou:
- Este ano vamos a Portugal.
A mulher levantou o nariz do tacho a ferver no fogão.
- Tás maluco?!
Ele queria falar da cantiga, de tudo o que lhe corria em tropel na cabeça, mas ela não lhe deu azo.
- Tás maluco, home? Íamos gastar um dinheirão. E os nossos planos? E o campo, e a casa nova? Atão não combinámos que íamos lá só pró ano?
O Luís sentiu-se envergonhado por ser o mais fraco. Mais fraco do que ela. Ela que chorara baba e ranho ao deixar a terra.
"Mas, porra, ela não ouviu a cantiga!".
Saiu porta fora. Para a rua. Para a multidão.
Mesmo assim andou oito dias sem quase falar à mulher, entre envergonhado e raivoso. Depois passou-lhe e continuou a amealhar dólares, para o campo e para a casa nova.

HISTÓRIA DE NATAL


A Teresa está feliz. Radiante.
O bacalhau com batatas e grelos ferve na panela. À volta da mesa farta, o seu Luís, o Jaime, a Maria Cândida, a criançada. Petiscam e bebericam numa algazarra festiva.
Na televisão não se fartam de dizer que lá fora está um frio de rachar. Vinte e oito ou vinte e nove graus negativos. A consoada mais fria dos últimos anos.
- Aqui tá quentinho - encolhe os ombros o Luís, esvaziando mais um cálice de porto.
Com a colher de pau, Teresa acalma a fervura da panela.
"Que rico bacalhau! Graças a Deus é uma farturinha."
De chofre:
- Nossa Senhora! Ai que desgraça! - Abafou os gritos com o avental .-Santo Deus!
Esquecera-se de comprar azeite, O santo azeitinho para os grelos. Os grelos precisam de azeite como o corpo de sangue, sempre ouvira dizer. E logo naquela noite santa!
Resoluta, enfiou o casaco e as botas de neve. Os outros, quando a viram naquele preparo, ficaram pasmados:
- Onde vais, alma do diabo?
- Tás maluca?
- Vou ali à loja do açoriano comprar umas coisas de que me esqueci. Só vos peço o favor de olharem pelo bacalhau. Daqui a dez minutos, desliguem o fogão. Não se esqueçam, pel'amor de Deus!
- Esta mulher é o diabo. Ainda é capaz de ficar tesa como um carapau, aí para algum canto.
- Na noite de hoje Nosso Senhor ajuda toda a gente. Não se esqueçam do bacalhau, é só o que vos peço.

*

O Zé Biana está estirado sobre a cama. Os olhos pregado no tecto. A telefonia enche o quarto com canções de Natal. Engole, mais uma vez, o suspiro que o sufoca. Sensação igual só em Angola, na tropa, nas consoadas no mato. Mas lá havia os camaradas, qualquer chalaça, um mar de cerveja para afogar tudo. Não havia a mulher, a filha. A espera. À espera que ele abrisse caminho na vida.
Apagou a telefonia e foi à janela. O gelo espalmava-se contra as vidraças como mão gelada e ameaçadora. Raspou o vidro com as unhas. O pedaço de rua estava deserto e branco, numa quietude polar.
"Que noite!"
Sentou-se na cama e tornou a ligar a telefonia. As mesmas cantigas de Natal. As mesmas cantigas de esperança. Afinal era essa mesma esperança que o mantinha de pé. Esperança de arranjar um emprego melhor, poder mandar vir a mulher e a filha.
- Tudo se há-de arranjar, rapaz - encorajou-se em voz alta. - Não sejas fracalhote. Já passaste bocados piores e não morreste. Estás é a precisar duma bebedeira. Amanhã acordas sem esses macaquinhos na cabeça. Mesmo na noite de hoje deves encontrar praí qualquer buraco onde comprar uma garrafa de vinho.

*

- Boa noite - saudou Teresa.
O depanneur estava praticamente deserto. Apenas um freguês de ar taciturno esperava que o Açoriano lhe fizesse a conta. Mas este não estava muito apressado, mais disposto a cavaquear do que a outra coisa.
- Que noite! Há dezoito anos que estou em Montreal e nunca vi uma consoada tão fria. - A máquina pôs-se a cantarolar números. - Quatro dólas e meia. O senhor é novo por cá?
- Estou cá há sete meses.
- Já tem emprego?
- Por agora lavo pratos aí num restaurante. Em Portugal era serralheiro.
- Ainda vai ter muito que amargar - profetizou o Açoriano, arrancando uma gorda e pestilente baforada do enorme charuto pendurado dos beiços.
Teresa apanhou a garrafa de azeite da prateleira e aproximou-se do balcão, a tempo de compartilhar da conversa. Olhou, de soslaio, a garrafa de vinho.
- O senhor vai consoar com alguém? - perguntou.
O Zé Biana corou, sob a barba de dois dias.
- Não, senhora. Este ano lá terá que ser assim. Ainda por aqui ando sem a família.
Teresa estava rouca de emoção:
- Coitado! Numa noite destas! O senhor vai consoar lá a casa, tá dito. O meu Luís não vai dizer o contrário.
- Mas...
- Não há mas nem meio mas. Afinal o senhor também é português. É feito do mesmo barro que nós. Tá dito e não há mais discussão. Ia beber esse vinho sozinho? O vinho assim sabe a veneno. Ora venha daí!
*
- Trago este senhor pra consoar co'a gente. Ainda tem a família em Portugal e não...
- Sente-se, homem - interrompeu-a o marido. -Cabe sempre mais um pobre à mesa doutro.
- Eh, Luís, até pode ser Nosso Senhor Jesus Cristo a tentar-nos. Na noite de hoje nunca se sabe - segredou a Maria Cândida.
- Tu tás é já com um copo a mais - gargalhou o Luís. Mas, pelo sim pelo não, reservou a melhor posta de bacalhau para o desconhecido.



SÁBADO À NOITE


As salsichas com ovos grudavam-se à garganta ressequida. Deitou a garrafa à boca e deixou o vinho escorrer longamente. Ganhou fôlego e tornou a beber. Mas nem mesmo assim o nó desapareceu. O nó crónico dos sábados à noite, quando as paredes do apartamento o espremiam contra os seus pesadelos.
"O que precisas é dum bocado de ar nas trombas".
A St. Laurent era um deserto. Somente ele, as montras, carros apressados, um céu gelado. E o gelo a estalar sob as botas.
"Em vez d'andar práqui feito parvo, vou é até ali à Casa Minhota tomar uma bica e um bagaço."
Estugou o passo. Sentia os pêlos do nariz tesos como arames, o queixo encortiçado.
"Raio de frio."
Estacou defronte da agência do banco português.
"Deixa lá ver a como tá o câmbio. Pra quê? Não mando dinheiro para Portugal."
Mas olhou. Como sempre. Aqueles números gordos tinham visco.
"Porra, o escudo cada vez vale menos."
Um cartaz, colado à vitrina, despertou-lhe a atenção. Devia ser outro baileco português. Grandioso, diziam sempre os cartazes.
"Deixa lá ver onde é."
Igreja St. Louis de France.
"Mas para que quero eu saber de bailes? Já não estou em idade de bailações."
Bebidas, petiscos, engodava o cartaz.
"Até pode ser um bocado bem passado. Sempre hei-de encontrar qualquer gajo conhecido."

*

Quando entrou, o conjunto esfarrapava-se todo às voltas com um malhão. Furou até ao bar e pediu uma cerveja.
- Aqui tá mais quente do que lá fora, eh amigo?
O Algarvio olhou o seu interlocutor. Um fulano de cara avermelhada, a rondar os cinquenta.
- É verdade - aquiesceu.
- O Canadá só tem de bom as dólas - tornou o outro. - Vim há dias de Portugal e aquilo sim, amigo, aquilo é que é clima.
- Por que não ficou por lá?
- A família, amigo, os filhos na escola. O amigo tem filhos?
- Nem mulher!
- E anda nestas terras a fazer o quê?! Hoje em dia só não ganha lá bom dinheiro quem é malandro. E pelas suas mãos vê-se que não é malandro nenhum. E aquele sol! Até no inverno! Um sol assim é uma riqueza.
O conjunto atacava um vira. Os pares rodopiavam, entregues a apelos profundos.
- Não há nada como a nossa terra, amigo.
O calor subia dos corpos e das almas.
- Não perca tempo, amigo. Ai se eu pudesse!
O conjunto atirava-se agora a uma marcha.
- Que céu azul, amigo!
Quando saiu dali o Algarvio ia com a barriga cheia de cerveja, música e decisões feitas.
"Segunda-feira compro um bilhete de avião e raspo-me para Portugal."
Como mil vezes anteriormente, aliás.
Geralmente, nos sábados à noite.

 

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