Na tarde mansa, moído de trabalho, o Luís Negro sobe
a St.- Laurent. Lá no alto, na zona dos portugueses, a rua
explode em festa: bandeiras, música, bancas de rouparia, petiscos,
quinquilharias, carripanas de pop-corn, profusão de feira "das
mil e uma noites".
Foi quando o altifalante lhe berrou na cara a cantiga. Cantina esganiçada
que falava dum amor qualquer, ao luar .. na praia ... lá em
baixo ... em Portugal.
Engoliu em seco, as pernas cheias de tremuras. E aquilo que não
lhe acontecia há anos, desde a morte da mãe, aconteceu:
duas gordas lágrimas saltaram-lhe aos olhos. Envergonhado,
raivoso, enxugou-as às costas da mão encordoada.
"Porra, Luís, és algum garoto?"
A cantiga, endiabrada, sibilante, continuava a verrumar-lhe o cérebro.
"Raio de cantiga."
Pensamentos, durante anos adormecidos, acordavam indomáveis:
a sua Vieira, o mar e a praia, os copos de tinto emborcados na tasca
do Palaurdo, os barcos e as pescarias e, sobretudo, os camaradas de
campanha, o Tonho, o Rijo, o Coxo, tantos, tantos...
"E a fome que passavas, Luís, e a fome?" - rebatia,
a afastar os engodos. -"Aqui podes juntar umas dólas e
lá? Lá roías a ponta dum corno. E olha que não
trabalhavas menos. Na pesca, na lavoura, puxavas pelo canastro como
um mouro".
E os pensamentos com os freios nos dentes: nos entardeceres ensanguentados
de verão, qual deus de bronze a puxar as redes, os músculos
quase a rebentar, trespassado pelo olhar admirativo da turistada toda,
os pulmões esbraseavam-se: ôoh ... ôoh ... ôoh
... e as sardinhas a saltar como prata! E o mar manso como um rafeiro!
E ...e ... e
!
Mal chegou a casa, disparou:
- Este ano vamos a Portugal.
A mulher levantou o nariz do tacho a ferver no fogão.
- Tás maluco?!
Ele queria falar da cantiga, de tudo o que lhe corria em tropel na
cabeça, mas ela não lhe deu azo.
- Tás maluco, home? Íamos gastar um dinheirão.
E os nossos planos? E o campo, e a casa nova? Atão não
combinámos que íamos lá só pró
ano?
O Luís sentiu-se envergonhado por ser o mais fraco. Mais fraco
do que ela. Ela que chorara baba e ranho ao deixar a terra.
"Mas, porra, ela não ouviu a cantiga!".
Saiu porta fora. Para a rua. Para a multidão.
Mesmo assim andou oito dias sem quase falar à mulher, entre
envergonhado e raivoso. Depois passou-lhe e continuou a amealhar dólares,
para o campo e para a casa nova.
HISTÓRIA
DE NATAL
A Teresa
está feliz. Radiante.
O bacalhau com batatas e grelos ferve na panela. À volta da
mesa farta, o seu Luís, o Jaime, a Maria Cândida, a criançada.
Petiscam e bebericam numa algazarra festiva.
Na televisão não se fartam de dizer que lá fora
está um frio de rachar. Vinte e oito ou vinte e nove graus
negativos. A consoada mais fria dos últimos anos.
- Aqui tá quentinho - encolhe os ombros o Luís, esvaziando
mais um cálice de porto.
Com a colher de pau, Teresa acalma a fervura da panela.
"Que rico bacalhau! Graças a Deus é uma farturinha."
De chofre:
- Nossa Senhora! Ai que desgraça! - Abafou os gritos com o
avental .-Santo Deus!
Esquecera-se de comprar azeite, O santo azeitinho para os grelos.
Os grelos precisam de azeite como o corpo de sangue, sempre ouvira
dizer. E logo naquela noite santa!
Resoluta, enfiou o casaco e as botas de neve. Os outros, quando a
viram naquele preparo, ficaram pasmados:
- Onde vais, alma do diabo?
- Tás maluca?
- Vou ali à loja do açoriano comprar umas coisas de
que me esqueci. Só vos peço o favor de olharem pelo
bacalhau. Daqui a dez minutos, desliguem o fogão. Não
se esqueçam, pel'amor de Deus!
- Esta mulher é o diabo. Ainda é capaz de ficar tesa
como um carapau, aí para algum canto.
- Na noite de hoje Nosso Senhor ajuda toda a gente. Não se
esqueçam do bacalhau, é só o que vos peço.
*
O
Zé Biana está estirado sobre a cama. Os olhos pregado
no tecto. A telefonia enche o quarto com canções de
Natal. Engole, mais uma vez, o suspiro que o sufoca. Sensação
igual só em Angola, na tropa, nas consoadas no mato. Mas lá
havia os camaradas, qualquer chalaça, um mar de cerveja para
afogar tudo. Não havia a mulher, a filha. A espera. À
espera que ele abrisse caminho na vida.
Apagou a telefonia e foi à janela. O gelo espalmava-se contra
as vidraças como mão gelada e ameaçadora. Raspou
o vidro com as unhas. O pedaço de rua estava deserto e branco,
numa quietude polar.
"Que noite!"
Sentou-se na cama e tornou a ligar a telefonia. As mesmas cantigas
de Natal. As mesmas cantigas de esperança. Afinal era essa
mesma esperança que o mantinha de pé. Esperança
de arranjar um emprego melhor, poder mandar vir a mulher e a filha.
- Tudo se há-de arranjar, rapaz - encorajou-se em voz alta.
- Não sejas fracalhote. Já passaste bocados piores e
não morreste. Estás é a precisar duma bebedeira.
Amanhã acordas sem esses macaquinhos na cabeça. Mesmo
na noite de hoje deves encontrar praí qualquer buraco onde
comprar uma garrafa de vinho.
*
-
Boa noite - saudou Teresa.
O depanneur estava praticamente deserto. Apenas um freguês de
ar taciturno esperava que o Açoriano lhe fizesse a conta. Mas
este não estava muito apressado, mais disposto a cavaquear
do que a outra coisa.
- Que noite! Há dezoito anos que estou em Montreal e nunca
vi uma consoada tão fria. - A máquina pôs-se a
cantarolar números. - Quatro dólas e meia. O senhor
é novo por cá?
- Estou cá há sete meses.
- Já tem emprego?
- Por agora lavo pratos aí num restaurante. Em Portugal era
serralheiro.
- Ainda vai ter muito que amargar - profetizou o Açoriano,
arrancando uma gorda e pestilente baforada do enorme charuto pendurado
dos beiços.
Teresa apanhou a garrafa de azeite da prateleira e aproximou-se do
balcão, a tempo de compartilhar da conversa. Olhou, de soslaio,
a garrafa de vinho.
- O senhor vai consoar com alguém? - perguntou.
O Zé Biana corou, sob a barba de dois dias.
- Não, senhora. Este ano lá terá que ser assim.
Ainda por aqui ando sem a família.
Teresa estava rouca de emoção:
- Coitado! Numa noite destas! O senhor vai consoar lá a casa,
tá dito. O meu Luís não vai dizer o contrário.
- Mas...
- Não há mas nem meio mas. Afinal o senhor também
é português. É feito do mesmo barro que nós.
Tá dito e não há mais discussão. Ia beber
esse vinho sozinho? O vinho assim sabe a veneno. Ora venha daí!
*
- Trago este senhor pra consoar co'a gente. Ainda tem a família
em Portugal e não...
- Sente-se, homem - interrompeu-a o marido. -Cabe sempre mais um pobre
à mesa doutro.
- Eh, Luís, até pode ser Nosso Senhor Jesus Cristo a
tentar-nos. Na noite de hoje nunca se sabe - segredou a Maria Cândida.
- Tu tás é já com um copo a mais - gargalhou
o Luís. Mas, pelo sim pelo não, reservou a melhor posta
de bacalhau para o desconhecido.
SÁBADO À NOITE
As salsichas com ovos grudavam-se à garganta ressequida. Deitou
a garrafa à boca e deixou o vinho escorrer longamente. Ganhou
fôlego e tornou a beber. Mas nem mesmo assim o nó desapareceu.
O nó crónico dos sábados à noite, quando
as paredes do apartamento o espremiam contra os seus pesadelos.
"O que precisas é dum bocado de ar nas trombas".
A St. Laurent era um deserto. Somente ele, as montras, carros apressados,
um céu gelado. E o gelo a estalar sob as botas.
"Em vez d'andar práqui feito parvo, vou é até
ali à Casa Minhota tomar uma bica e um bagaço."
Estugou o passo. Sentia os pêlos do nariz tesos como arames,
o queixo encortiçado.
"Raio de frio."
Estacou defronte da agência do banco português.
"Deixa lá ver a como tá o câmbio. Pra quê?
Não mando dinheiro para Portugal."
Mas olhou. Como sempre. Aqueles números gordos tinham visco.
"Porra, o escudo cada vez vale menos."
Um cartaz, colado à vitrina, despertou-lhe a atenção.
Devia ser outro baileco português. Grandioso, diziam sempre
os cartazes.
"Deixa lá ver onde é."
Igreja St. Louis de France.
"Mas para que quero eu saber de bailes? Já não
estou em idade de bailações."
Bebidas, petiscos, engodava o cartaz.
"Até pode ser um bocado bem passado. Sempre hei-de encontrar
qualquer gajo conhecido."
*
Quando
entrou, o conjunto esfarrapava-se todo às voltas com um malhão.
Furou até ao bar e pediu uma cerveja.
- Aqui tá mais quente do que lá fora, eh amigo?
O Algarvio olhou o seu interlocutor. Um fulano de cara avermelhada,
a rondar os cinquenta.
- É verdade - aquiesceu.
- O Canadá só tem de bom as dólas - tornou o
outro. - Vim há dias de Portugal e aquilo sim, amigo, aquilo
é que é clima.
- Por que não ficou por lá?
- A família, amigo, os filhos na escola. O amigo tem filhos?
- Nem mulher!
- E anda nestas terras a fazer o quê?! Hoje em dia só
não ganha lá bom dinheiro quem é malandro. E
pelas suas mãos vê-se que não é malandro
nenhum. E aquele sol! Até no inverno! Um sol assim é
uma riqueza.
O conjunto atacava um vira. Os pares rodopiavam, entregues a apelos
profundos.
- Não há nada como a nossa terra, amigo.
O calor subia dos corpos e das almas.
- Não perca tempo, amigo. Ai se eu pudesse!
O conjunto atirava-se agora a uma marcha.
- Que céu azul, amigo!
Quando saiu dali o Algarvio ia com a barriga cheia de cerveja, música
e decisões feitas.
"Segunda-feira compro um bilhete de avião e raspo-me para
Portugal."
Como mil vezes anteriormente, aliás.
Geralmente, nos sábados à noite.